Editorial (outubro/2017)

Lançamos este jornal todo dia 5 – data que, desde novembro de 2015, tornou-se marcante em nossas vidas. Neste mês, esse lançamento coincide com uma importante audiência pública, na qual serão discutidas as principais frentes da nossa luta: o reconhecimento de atingidos por parte da Fundação Renova/Samarco, as discordâncias da empresa em relação às reivindicações que levamos para reconstrução do Cadastro e aspectos importantes do reassentamento das comunidades.

Dessa vez, esperamos sair do encontro sem ouvir nenhum advogado das empresas dizer “e daí?” para nosso sofrimento. Sim, isso aconteceu na última audiência da qual participamos, realizada no dia 23 de agosto. Ali, o descaso das mineradoras em relação aos atingidos foi colocado em palavras, mas, a verdade é que escutamos todos os dias, de muitas formas, esse “e daí”. Infelizmente, trazemos, mais uma vez, casos de negligência da empresa em relação aos problemas causados por ela à vida de diferentes atingidos.

Contudo, apesar da lentidão dos processos e de todas as dificuldades – que, somadas, tanto pensam – propusemo-nos, nesta edição, um olhar diferente para nossa luta. Sem esquecermos dos desafios diários que nos cabem, o Jornal A SIRENE se fez criança e buscou, neste mês de outubro – dia dos pequenos, dos professores, de Nossa Senhora da Aparecida -, um olhar de esperança e otimismo em relação ao futuro incerto das comunidades atingidas.

As sireninhas das escolas de Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e Gesteira se somaram e encheram as páginas do nosso jornal de combustível para o futuro. Juntas, escreveram as manchetes que gostaríamos de noticiar: comunidades reassentadas, pagamento de indenizações justas, o fim dos piolhos e estrogonofe na merenda escolar!

Enquanto as manchetes do futuro não se realizam, as boas notícias – agora, reais – chegaram para o patrimônio das comunidades atingidas de Mariana. Em setembro, foi encaminhado, dentro do Grupo Técnico de Referência, a necessidade de revisão do TCP (Termo de Conduta Preliminar) que orientava os trabalhos da Renova/Samarco na área, bem como o indicativo da necessidade de um diagnóstico mais profundo em relação aos bens culturais materiais e imateriais do território cortado pelo Gualaxo do Norte.

Uma grande vitória, afinal, é importante lembramos que patrimônio não é só uma capela ou uma igreja, mas também as bonitas festas que os moradores  de Bento e Paracatu, respectivamente, dedicaram a Nossa Senhora das Mercês e ao Menino Jesus no mês passado.São os nossos costumes, os lazeres que tínhamos e que perdemos, as cachoeiras, grutas e cavernas que compunham a paisagem de nossos territórios. Patrimônio é a história encarnada em vestígios de um povo que viveu e morreu num determinado lugar, bem como toda herança que atravessa o tempo para encontrar sentido no presente.

Por isso tudo, nosso patrimônio é rico, diverso, secular. Ele está nos festejos, nos saberes, nos ofícios e em nossos hábitos. Está no campeonato de truco e nas partidas de futebol que não abrimos mão de disputar. Está no valor de nossas terras, no prazer inexplicável de estarmos no lugar onde passamos toda a vida e onde estão nossas referências.

Que o diga Dona Teresinha e sua casa, em Bento Rodrigues – espaço que, todo final de semana, reúne alguns moradores da comunidade. Vamos para lá aos fins de semana para renovar as energias e sentir o gostinho bom de voltar pra casa, de dormir sob o céu de Bento e acordar com um frescor de dia que a gente só sente por lá.

Sim, somos loucos pelo Bento, assim como somos loucos por Paracatu de Baixo e Paracatu de Cima, loucos por Camargos, Ponte do Gama, Pedras, Borba, Campinas, Barretos, Gesteira, Barra Longa. E por aí vai, rio adentro. Somos loucos pela terra que é nossa e que, ao contrário que a empresa quer, não poderá ser comprada com lama.

Nossa história não está à venda e, por isso, dizemos NÃO a qualquer proposta de venda ou permuta de nossas propriedades. Não há dinheiro que pague a memória que cultivamos nas terras da gente. Lutamos, hoje, por um futuro promissor, visto com olhos e as expectativas de uma criança, mas também com a memória viva dos anos.