Editorial – A SIRENE em silêncio

Nesta edição de 2 anos, nos deparamos com o desafio de escolher uma capa que refletisse a condição atual dos atingidos de Mariana e de Barra Longa. Queríamos uma imagem que não fizesse referência a nenhuma comunidade específica e que não personalizasse o rosto de nenhum atingido. Buscamos não representar um tema específico – como o atraso dos reassentamentos ou as dificuldades dos processos de indenização -, ainda que, ao mesmo tempo, fosse, para nós, importante denunciar o absurdo das condições às quais estamos submetidos dois anos depois do rompimento de Fundão.

Debatemos qual mensagem gostaríamos de transmitir com essa imagem-síntese de tanta coisa que estamos vivendo, e esbarramos na imponderável escolha entre a denúncia e a esperança. Para alguns de nós, a escolha deveria ter sido pela mesma capa preta que, no ano passado, simbolizou o luto de nossas comunidades. Para outros, o momento pede otimismo e esperança – não para “tapar o sol com a peneira”, mas para renovar as energias necessárias às lutas anunciadas em nosso futuro.

No desejo de dizer tanta coisa, de exprimir tanto sentimento, optamos pelo silêncio. Chegamos, neste mês, sem capa, sem manchete, sem cor. Sobre esse branco-amarelado do papel-jornal, há de vir um futuro sobre o qual pouco sabemos, apesar de tanto desejá-lo. Conquistas virão e, infelizmente, derrotas também. Certo é que a provisoriedade da vida de hoje não pode ser mantida. Estamos aqui, atentos, aguardando as capas e as imagens que ilustrarão o futuro de nossas vidas.

Dois anos de quê?

Dois anos de reuniões, de audiências, de atrasos em projetos de vida. Dois anos de comprometimento da nossa saúde física e mental. Sem reassentamento e sem indenizações, dois anos de injustiças e de sucessivas violações de direitos.

Dois anos e os momentos felizes do passado parecem que vão ficando mais longe. E vão mesmo. Amigos e parentes vão se afastando devido a outros compromissos, uns se adaptando à vida provisória melhor que outros. Cada um lidando com o sofrimento a seu modo.

Dois anos e as marcas da lama seca, desbotadas pelo tempo, ganham vida nos olhos exaustos dos atingidos. São as inseguranças que temos quando olhamos para trás e vemos o que perdemos. Incertezas que sentimos quando olhamos ao redor e não conseguimos enxergar o trabalho de reparação que dizem estar sendo feito.

Dois anos e as lembranças da vida de antes aquecem a memória que iremos levar às nossas novas moradias. A fé e as celebrações religiosas vêm ajudando a superar os obstáculos. A vida das comunidades – que, hoje, resistem no coração da gente – também.

Dois anos e a lama ainda escoa. Ainda está no leito do rio. Ainda é um risco à segurança das famílias que seguem vivendo nas proximidades do Gualaxo do Norte. Dois anos e o meio ambiente ainda chora lágrimas contaminadas de rejeito.

O significa ser atingido?

Durante todo esse tempo, tentamos construir, dentro de nós, o que seria um conceito de atingido. No dia a dia, estamos buscando esse entendimento em justificativas pouco convincentes até para nós mesmos.

Ser atingido é levantar todos os dias e não se reconhecer onde está. É ter que sair para continuar em busca de algo que não está mais ao alcance. É lutar, lutar sem vislumbrar horizonte de dias melhores.

São dois anos e, a cada dia que passa, perdemos identidade, laços de amizade, lembranças que vão ficando pelo caminho. Vemos que será preciso continuar essa luta, mas não sabemos até quando. Agarramo-nos na fé como nossa principal aliada, bem diferente de um ano atrás, quando acreditávamos mais em nós mesmos.

Atingido não é só quem teve a casa destruída.

Atingido é quem correu da lama, quem perdeu o emprego, teve que sair da sua casa perdida na lama ou interditada pela Defesa Civil.

Atingido é quem estava longe e sofreu um aperto no coração quando levou um choque ao saber que alguém da família podia não ter sobrevivido.

Atingido é quem sentiu a tristeza sem palavras de ver seu temor se tornar realidade.

Atingido é quem, numa quinta-feira comum, estava a caminho de casa quando descobriu que não tinha mais para onde voltar.  

Atingido é quem continua vivendo em áreas de risco, sem ter direito à informação sobre as condições de suas propriedades ou sem receber opções viáveis de moradia.

Atingido, como definiu Marino, morador de Paracatu de Baixo, é quem teve a vida invadida pela lama.

Reivindicações

A reconstrução do formulário do cadastro em Mariana é uma das principais conquistas que já tivemos. Hoje, lutamos para que as empresas aceitem as diretrizes e as condições de indenização que estamos, há meses, trabalhando junto com a Assessoria Técnica.

Importante que a Justiça não trate atingido e empresa como simples partes de um processo conciliatório, esquecendo-se da relação entre vítima e criminoso, e que nos coloca na mesma mesa de negociação.

Após tantas reuniões de GTs para a discussão do reassentamento das comunidades nos novos terrenos, nos deparamos com a morosidade desse processo e com a incapacidade da Fundação Renova/Samarco de oferecer soluções rápidas aos problemas que surgem – muitos deles, criados por ela mesma. Que o nosso reassentamento, assim como as indenizações, sejam prioridades para a empresa. Que os poderes públicos, de todas as instâncias, ajam a favor das vítimas de um crime no qual também possuem sua parcela de responsabilidade.