Editorial (janeiro/2018)

Começamos 2018 em estado de vigilância, confiança e disposição para acompanharmos ativamente os processos de reparação nos quais estamos envolvidos. Sabemos que não é fácil virar mais um ano com a vida em estado de incerteza, mas o caminho da luta nos ensina a importância da persistência. Somente assim não nos permitiremos cair no esquecimento e no descaso com os quais as mineradoras querem tratar um crime do qual somos vítimas diárias.

Por isso, gritamos a cada direito violado. Foi o que, em Mariana, fizemos na última reunião de 2017. Ali, dizemos às empresas, ao Ministério Público e a nós mesmos: estamos cansados, mas juntos e articulados! Deixamos clara a importância da Ação Civil Pública do município e reafirmamos que não possuímos relação de confiança com a Fundação Renova – e assim continuaremos, enquanto as ações dessa entidade seguirem orientadas pelos interesses das mineradoras.

Nossas pautas são muitas. O reassentamento precisa virar prioridade dos agentes responsáveis pela reparação. Chega de enrolação! Queremos respostas tecnicamente competentes e celeridade frente às burocracias. Queremos um reassentamento justo, humano, compatível com nossos modos de vida.

A todos nós – gente, bicho, mata e rio: que 2018 nos seja o ano da virada.

Repetimos o absurdo das mineradoras terem construído diques e barragens e não terem refeito uma só casa para atingido! Seguimos questionando: quando o Dique S4 será desmontado? Até quando famílias que ainda vivem em áreas de insegurança geradas pelo Complexo de Germano seguirão sem direito à informação e sem a oferta de alternativas de habitação? Por quantos séculos mais nossas populações serão chantageadas por uma mineradora que usa o desemprego para requerer a si o papel de vítima de um crime fundado em sua inteira (ir)responsabilidade?

Por todos os desafios anunciados, entramos no terceiro ano do crime cada vez mais conscientes do nosso lugar como atingido. Nesse papel, para o bem e para o mal, nossas vidas particulares ganham contornos políticos que fazem de nossos gestos instrumentos importantes à resistência e à luta. Nessa relação que faz o pessoal, político – que escreve as memórias do pé de manga no tronco da História – é que o jornal A SIRENE chega a janeiro.

Na capa desta edição, trazemos o desejo de transformação que toca a vida de cada atingido e que transborda ao longo de toda uma Bacia. Alimentados pelo poder revolucionário do amor, brindamos às bodas de 25 anos do matrimônio de Marquinhos e Marinalda. Brindamos aos muitos anos de história que fazem das terras de Bento Rodrigues, Bento Rodrigues. Brindamos a cada e a todas as comunidades atingidas pelo desastre de Fundão.

Somos muitos e estamos a construir um futuro possível onde a consciência e afeto irão redesenhar a história de um bravo rio, acertadamente batizado de Doce. A todos nós – gente, bicho, mata e rio: que 2018 nos seja o ano da virada. O início de uma verdadeira e poderosa regeneração!