Editorial (Maio/2021)

Todo o processo de preparação de uma comida diz mais do que simplesmente quantos nutrientes e calorias há no alimento. Para fazer o fubá, por exemplo, é preciso cultivar o milho, colher, debulhar as espigas, secar e moer os grãos, também são envolvidos conhecimentos sobre a terra, as trocas familiares e a cultura local. Ao nos alimentarmos, contamos a nossa história. No entanto, nem sempre o que comemos, ou o que deixamos de comer, é uma opção pessoal.    

O abismo da desigualdade nacional se alarga: alto índice de desemprego, mais da metade da população brasileira vivendo com insegurança alimentar e o país caminhando de volta ao Mapa da Fome. Esse é o nosso atual cenário, reflexo, também, da pandemia de Covid-19 e da forma como os governantes lidam com a situação. 

No entanto, desde 2015, as comunidades atingidas tiveram sua cultura alimentar modificada. O que antes era só colher no quintal, agora é preciso comprar. Com a vizinhança afastada, a troca de alimentos é dificultada. Os agrotóxicos passaram a ter presença mais forte nos pratos. A situação se agravou com a pandemia e as altas dos preços. Por isso, nesta edição, trazemos relatos de como as comunidades atingidas lidam com a comida desde o crime do rompimento da barragem de Fundão. 

As transformações que a pandemia impôs na vida das pessoas atingidas se refletem em todas as áreas. Com o distanciamento e o isolamento social, as mães enfrentam uma sobrecarga de trabalho maior do que já enfrentavam. Precisam se dividir entre trabalho, cuidado da família, afazeres domésticos e lidar com as implicações psicológicas que o momento traz. Ouvimos mães atingidas para entendermos como tem sido viver sob essa pressão. 

Diante de todas as dificuldades que o Jornal A SIRENE tem documentado desde o rompimento da barragem de Fundão, há cinco anos, e com o início da pandemia no Brasil, há pouco mais de um ano, o desejo que prevalece, entre as comunidades atingidas, é o de retorno. Retorno às suas casas, às suas rotinas, suas plantações, suas vizinhanças. A cada dia que passa, os danos são continuados em todos os aspectos da vida das pessoas atingidas. Não comem como comiam antes, não possuem as mesmas interações sociais, não desfrutam da mesma rotina e, para piorar, precisam continuar em uma batalha constante por seus direitos, além de suportar as dificuldades que o distanciamento social trouxe. A luta tem sido, a cada dia, mais árdua e vemos, nesta edição, até mesmo um representante da Justiça tentando minar a coletividade das comunidades atingidas a fim de beneficiar não só a si mesmo, mas a advogados(as) e empresas. Ainda assim, é preciso resistir.