Editorial (abril/2022)

Nas últimas semanas, um turbilhão de acontecimentos. Audiências, reuniões, diligências, decisões judiciais, perspectivas de julgamento. Siglas diferentes, que, às vezes, pouco dizem, diante do vácuo da reparação, para as pessoas atingidas, como CNJ, TJMG, TTAC. A possibilidade de uma repactuação no horizonte, que não inclui, mais uma vez, quem foi atingido e atingida pelo crime diretamente na mesa de negociação.

Enquanto isso, as violações de direito continuam acontecendo. A Fundação Renova parece incapaz de garantir direitos básicos, como acesso ao território, ou reparar sem destruir ainda mais coisas pelo caminho, assuntos que tratamos nesta edição. Isso sem contar, claro, o fato inacreditável de, até hoje, os reassentamentos não terem sido entregues. Talvez não seja apenas incapacidade. Talvez a destruição ou a não reparação seja projeto, seja meta.

Além de violar cotidianamente os direitos das pessoas atingidas, a Renova viola o direito à comunicação dessas comunidades. Deliberadamente, coloca entraves para o Jornal A SIRENE realizar suas atividades de informar, garantidas constitucionalmente e fundamentais à democracia, à transparência e à responsabilização de atores sociais.

Cercear, total ou parcialmente, o trabalho da imprensa é uma violência contra o jornalista ou a jornalista, mas é, também, uma violação do direito social à informação que toda sociedade tem, conforme a Declaração Universal dos Direitos Humanos. É censurar o trabalho da imprensa livre e independente de informar, questionar e impedir a plena liberdade de expressão.

Nós, do Jornal A SIRENE, repudiamos com veemência as tentativas da Fundação Renova de tentar impedir ou criar entraves para o livre exercício do jornalismo nas interações com pessoas atingidas e outras instâncias governamentais, institucionais e sociais. Vamos denunciar e continuar lutando para exercer nossas atividades, que têm sido mantidas com muito custo, muita batalha.

Fazemos isso sem deixar de lado os afetos que circulam e que nos movem nessa caminhada. Reencontros impedidos por seis anos começaram a acontecer, o que demonstra a resistência e a comunhão da comunidade.. A emoção de uma celebração no território, ainda de modo provisório, foi de todas as pessoas que estavam lá, como contamos nesta edição. Que venham outros domingos, outras celebrações.