Editorial (Maio/2022)

É doloroso perceber que, mais de seis anos após o crime da Samarco, Vale e BHP, a esperança das pessoas atingidas por alguma reparação pode vir da Inglaterra. Enquanto o processo começa a andar nas cortes inglesas, aqui no Brasil cada nova sentença tem significado adiamentos, paralisações, entendimentos jurídicos diferentes. Ou seja, os avanços têm sido difíceis, muito difíceis, e tudo contribui para que as mineradoras não sejam responsabilizadas, não respondam por seus crimes, nem paguem o que é devido.

A repactuação amplifica a sensação de descrença, pois, novamente, quem foi atingido ou atingida não está na mesa para renegociar seus direitos. É, mesmo, inacreditável. A impressão é de uma insensibilidade de parte do Poder Judiciário com o sofrimento cotidiano de quem perdeu tudo: o sono, as memórias, o modo de vida, a saúde, a família, o sustento, a perspectiva. Muita gente parece incapaz de imaginar essa dor, de se colocar no lugar desses outros e dessas outras que, há mais de seis anos, vêm tentando se fazer escutar e fazer valer seus direitos.

Além das indefinições no campo judicial, a briga parece, sempre, de milhares de Davis contra alguns Golias: cada pessoa atingida, cada grupo, cada território, cada associação lutando de um lado; do outro, os bilhões de lucros da Vale, a intransigência da Renova.

Mas se todo dia é de luta, é também de esperança num futuro que, aos poucos, vai chegando. A volta da feira, uma retomada ainda parcial de benefícios. Alegrias que se misturam à tristeza pela destruição dos territórios que prossegue até hoje.

Com um momento mais controlado da pandemia de COVID-19, nós, do Jornal A SIRENE, também retomamos, aos poucos, a conversa cara a cara, o contato próximo com os protagonistas e as protagonistas dessas narrativas. É com satisfação que registramos e narramos esses encontros.