Oito anos de resistência

Oito anos se passaram desde o rompimento da barragem de Fundão, um marco que expôs não apenas o desastre-crime ambiental, mas também uma profunda crise moral e política em nosso país. Enquanto as comunidades atingidas lutam por reparação e justiça, o Brasil enfrenta a dura realidade de como o poder econômico e político frequentemente prevalece sobre o bem-estar das pessoas. 

A SIRENE, nesse período, não só documentou a batalha das comunidades, mas também atuou como uma voz incansável em prol da justiça social e ambiental. No entanto, não podemos negar que, em meio a essa luta árdua, a promessa de uma reparação adequada tem sido sistematicamente adiada ou negada. 

No oitavo aniversário do desastre-crime, a entrega das casas nos reassentamentos coletivos de Bento Rodrigues e Paracatu é um marco, mas é importante questionar a demora e as dificuldades que as pessoas atingidas enfrentaram até aqui. A adaptação a uma nova realidade deveria ser uma oportunidade para reconstruir vidas, mas muitos continuam a lutar contra as consequências da negligência das empresas envolvidas.

Nesta edição, A SIRENE também problematiza a questão da saúde mental das pessoas atingidas, uma ferida invisível que, muitas vezes, é ignorada pela sociedade e pelas autoridades. A negligência sistemática em relação ao sofrimento psicológico é um lembrete do quanto o sistema falhou em proteger os direitos e a dignidade daquelas e daqueles que mais sofreram. 

Oito anos após o desastre-crime de Fundão, o Brasil precisa enfrentar as consequências físicas do desastre-crime e também a crise moral que o cercou. É um lembrete doloroso de que a justiça ambiental e social continua sendo um ideal distante. As lutas das comunidades atingidas são, antes de tudo, a luta por uma sociedade mais justa e igualitária. Continuaremos a questionar, problematizar e denunciar as injustiças que persistem, pois somente por meio do escrutínio público e da solidariedade podemos esperar por um futuro em que o poder e a justiça estejam verdadeiramente ao alcance de todas e todos.

Créditos: Marcella Torres