A escola mostra sua força

Em Barra Longa, a comunidade tomou as rédeas do processo de resgate histórico e patrimonial do território, diante da omissão das mineradoras e da demora na reparação 

No município de Barra Longa, interior de Minas Gerais, o encontro das águas dos rios do Carmo e Gualaxo do Norte é reconhecido como Patrimônio Histórico e Cultural, mas como de praxe, esse conjunto paisagístico tornou-se mais um patrimônio brasileiro com uma série de desafios para a sua conservação. Foi em 05 de novembro de 2015, por meio das correntezas dos dois rios, que os rejeitos da mineração oriundos do rompimento da barragem de Fundão chegaram até o centro da cidade, causando impactos ambientais, inundando imóveis e soterrando comunidades rurais.

 

A entrada de Barra Longa tomada pelo rejeito de Fundão. Foto: Daniela Fichino/Justiça Global

A paisagem, que antes era atrativo, após o rompimento se tornou evidência expressiva dos danos provocados pela mineração predatória. Naquele dia, aproximadamente 62 milhões de metros cúbicos de rejeito de minério de ferro se deslocaram por cerca de 600 quilômetros entre os rios Gualaxo do Norte, rio do Carmo e a bacia do Rio Doce, chegando até a foz do rio Doce no distrito de Regência, localizado na cidade de Linhares, no litoral norte do Espírito Santo. Em 2023, oito anos após o crime ainda impune, cometido pelas empresas mineradoras, Samarco, Vale e BHP, distintas comunidades distribuídas pelos territórios atingidos ainda lutam por seus direitos e pela reparação digna de seus modos de vida.

Em Gesteira, distrito rural localizado a 18 quilômetros da sede de Barra Longa, às margens do rio Gualaxo do Norte, as residências, áreas de lazer e a Escola Municipal Gustavo Capanema foram destruídas pela onda de rejeitos da mineração. Para continuar os estudos, as crianças e os profissionais da antiga escola de Gesteira foram transferidos para uma creche que estava desativada e funcionou como escola provisória até que a mineradora Samarco construísse o novo espaço, que foi entregue em dezembro de 2016. Além das várias perdas materiais sofridas pelos moradores do distrito atingido, as crianças e jovens passaram por um processo difícil de retomada dos estudos após um trauma que, para muitos, se estende ainda hoje.

João Vitor Silva, que tinha 8 anos quando a barragem rompeu. Foto: Yasmim Paulino

No dia do rompimento, João Vitor Silva, 16 anos, foi à escola pela manhã e, de tarde, por volta das 16h, teve notícias do desastre-crime que ocorrera em Mariana. Não levou muito tempo para que os rejeitos da mineração também atingissem a sua comunidade. O jovem tinha apenas oito anos quando presenciou sua família e muitos de seus vizinhos perderem tudo. Na memória, ainda ecoam os sons da lama arrastando as vacas que pastavam às margens do rio durante a noite e as lembranças do estado em que sua residência ficou após a passagem dos rejeitos. “Ficou só a nossa casa, ficou igual uma ilha. A lama passou em volta e ficou só a casa e o curral, o resto encheu de lama.” A família de João Vitor ficou a salvo, mas eles viram suas terras, seus animais e toda a forma de sustento sendo levados pela lama que não poupou o que estava em sua frente.

Após um período na escola provisória, em 2018, aos 11 anos, João começou a estudar em Barra Longa. A mudança gerou estranhamentos, pois ele estava acostumado com a rotina que tinha no antigo ambiente escolar. Sua bicicleta era o meio de transporte favorito até a escola, mas hoje precisa acordar bem cedo e pegar ônibus para não perder as aulas – rotina comum no centro da cidade. Mesmo com diversas mudanças, as vivências em Gesteira não foram esquecidas. Ele diz sentir falta do “ambiente ao ar livre, do lugar mais rural, de olhar para fora e na janela ver as árvores bonitas, as paisagens e os passarinhos”. Também sente saudades das amizades que cultivou e dos colegas que estudavam com ele, “depois da lama foi todo mundo embora e se separou. Aí sinto falta”, conta o garoto, que já não encontra os amigos com tanta frequência, nem pode observar as belezas que admirava em sua infância na zona rural.

Fachada da escola de Barra Longa, diretamente atingida pela lama. Foto: Alexandre Coelho Melo

Atualmente, o adolescente, tranquilo e simpático, cursa o 2o ano do Ensino Médio na Escola Estadual Padre José Epifânio Gonçalves, que foi diretamente atingida pelos rejeitos da mineração. Inaugurada em 1958, em 2016 foi denominada como “escola do campo”. De acordo com a diretora Maria Márcia, no momento, 378 alunos estão matriculados na escola e mais de 70% desses estudantes são da zona rural. A escola contempla do 6o ao 9o ano do Ensino Fundamental, Ensino Médio e a educação profissional.

João Vitor é participativo nas atividades da escola, e entre os projetos que mais gostou de colaborar neste ano estão os estudos em tecnologia e inovação e as pesquisas que realizou para o desfile de 07 de setembro, quando estudantes e professores se mobilizaram para resgatar e apresentar a história de Barra Longa, a trajetória das comunidades tradicionais que habitam o lugar, os reflexos da mineração no território, entre outros temas que valorizam a memória da cidade e fortalecem a identidade de seus habitantes.

O garoto diz que deseja continuar os estudos em uma faculdade e, nesse futuro, assim como vivem seus pais, se imagina sempre perto da terra e dos animais. “Ainda estou pensando, mas talvez faça alguma coisa voltada para a área rural.” Quando lembra das marcas deixadas pelo rompimento da barragem de Fundão em sua vida e em seu território, logo fala dos impactos vistos no solo que antes era fértil. 

“A gente estava acostumado com um dia a dia e mudou tudo de uma hora para outra. Mudou completamente as paisagens, lá em casa mesmo mudou tudo. A gente está acostumado a colher da terra, as coisas nasciam tudo bonitinho e cresciam saudável. Hoje não tem mais isso, as coisas começam a crescer e morrem tudo por causa do rejeito.”

João Vitor Silva, morador de Barra Longa, da comunidade de Gesteira

Reparação

A família de João ainda aguarda a indenização, assim como tantos outros atingidos e atingidas que nem mesmo foram reconhecidos nesse processo que é lento e desgastante.

“Até hoje não tivemos nenhum tipo de assistência, nenhum tipo de reparação e a nossa escola está buscando justamente isso: o direito de ter direito à reparação, tanto dos profissionais da educação quanto dos alunos, porque é nítido ver os impactos nos nossos alunos ainda hoje”, afirma Simone Silva, professora de Artes da Escola Estadual Padre José Epifânio Gonçalves, ao relembrar o cenário de violações que a sua cidade e a comunidade escolar enfrentam ao longo dos últimos oitos anos.

Simone Silva, atingida e professora em Barra Longa. Foto: Alexandre Coelho Melo

Simone ainda não era professora em 2015, quando a barragem rompeu em Mariana e os rejeitos atingiram Barra Longa, mas já trabalhava na escola Padre Epifânio como auxiliar de serviços gerais. Ela se lembra de cada detalhe dos dias após o rompimento. 

“Ô gente, só quem viveu o caos do caos que sabe o que nós vivenciamos aqui. Eu ali na cozinha, ali fazendo comida para os meninos, não podia destampar a panela porque era muita poeira e tinha que mexer um arroz correndo, da gretinha, para não vir aquela poeira e sujar o alimento. Aí na hora que você estava ali fazendo a comida, dava para ver o helicóptero que vinha retirar os corpos e subia de novo. Foi o caos do caos, uma cena de terror, de terror mesmo.”

Simone Silva, moradora de Barra Longa, da comunidade de Gesteira

Além de cuidar da alimentação dos estudantes, Simone também ajudou a realizar todo o trabalho de limpeza da escola que fora atingida. Juntamente com outras pessoas, entrou no meio da lama e ajudou a retirar os rejeitos de minério de ferro. 

“A gente ficou desorientado mesmo, ninguém sabia o que fazer, até porque a Samarco chegou aqui cinco dias depois do rompimento. Quem limpou essa escola para os alunos voltarem a estudar foi a comunidade escolar, os profissionais, os amarelinhos e os próprios estudantes. Tanto é que muitos dos nossos alunos hoje, além de terem estudado no meio do caos e no meio da lama, muitos desses alunos que entraram na lama para fazer a limpeza, hoje tem problema de saúde. Alguns têm feridas na perna, outros tem vários problemas psicológicos e não têm assistência nenhuma, nenhum tratamento. Hoje, infelizmente, também estamos desassistidos pela área da saúde daqui de Barra Longa.” 

Simone Silva, moradora de Barra Longa, da comunidade de Gesteira

João Vitor também foi uma das crianças que adoeceram quando os rejeitos invadiram a comunidade. Ele observou mudanças no corpo logo após a chegada da lama tóxica e precisou de atendimento médico por conta do contato forçado. 

“Eu mesmo tive uma alergia nos dias mesmo. Tive até que ir para Mariana de helicóptero porque não tinha estrada. Alergia… eu acho que deve ter sido por causa da lama. Uns dois anos depois eu tive a mesma alergia de novo, a pele ficava toda manchada de manchas vermelhas. Eu acho que foi por causa da lama, porque eu nunca tive essa alergia.”

João Vitor Silva, morador de Barra Longa, da comunidade de Gesteira

Maria Márcia, diretora da escola estadual. Foto: Alexandre Coelho Melo

A atual diretora da escola, Maria Márcia, que na época era supervisora pedagógica, lembra que no dia 05 de novembro de 2015 estava em uma reunião de professores quando recebeu a notícia a respeito do rompimento. 

“Um professor de matemática chegou na reunião e falou ‘rompeu uma barragem lá em Mariana’, só que na nossa cabeça essa barragem era uma barragem de água, sempre ouvíamos falar que tinha uma barragem de água que se rompesse iria invadir a nossa cidade, mas continuamos em nossa reunião e mais tarde, terminado a reunião, todo mundo seguiu, vida normal e fomos para a casa esperando que a água viesse.”

Maria Márcia, moradora de Barra Longa

Para espanto dos moradores de Barra Longa, o que invadiu a cidade durante a noite foi uma enxurrada de lama. “Eu vendo a lama descer foi uma coisa horrorosa. Vinha em ondas, sabe? Ela ia e puxava e aquele barulhão… e descia carro, descia tudo… tanquinho de leite, animais e um mau cheiro muito forte”, conta Maria Márcia.

Oito anos também se passaram sem reparações dignas para os barra-longuenses. Na escola, segundo a diretora Maria, um dos desafios após o rompimento foi lidar com a poeira, isso é, os resquícios de rejeitos da mineração e com os estragos que a lama deixou em espaços como a quadra esportiva, cuja estrutura foi danificada e ainda hoje tem impedido que os estudantes realizem suas atividades de forma segura no local. Para além da quadra, a professora Simone lembra que a biblioteca também foi afetada e não foi devolvida para a escola. Todas essas questões têm sido empecilhos no dia a dia da comunidade escolar, que enfrenta o esquecimento e o descaso por parte daqueles que são responsáveis pela reparação.

Para além das perdas materiais, há outros desafios que surgiram após o rompimento da barragem e que insistem em permanecer no ambiente escolar e na vida dos estudantes que vivenciaram as mudanças impostas pelo desastre-crime: a ansiedade, o sofrimento mental e outras questões advindas do trauma, que são observadas por Simone e outros profissionais da escola. 

“No meio do caos nós estamos até hoje. Os nossos alunos de hoje são alunos depressivos, com crise de ansiedade. Se você chegar aí fora você vai ver uns quatro, cinco alunos por aí com crise de ansiedade ou chorando. Foi muito impactante e em nenhum momento tiveram apoio, cuidado psicológico ou um atendimento específico.”

Simone Silva, moradora de Barra Longa, da comunidade de Gesteira

Lembrança escolar de Ryan Alberto Cota, na estante de casa. Foto: Alexandre Coelho Melo

No caso de Ryan Alberto Cota, outro jovem atingido da comunidade de Gesteira, as marcas deixadas pelo crime-desastre são profundas. A infância dele também foi atravessada pelos problemas decorrentes do rompimento da barragem de Fundão, que acompanhou de perto as perdas materiais e afetivas da família. Antes do acontecimento que alterou seus modos de vida, Ryan acordava cedo, ia pra escola e encontrava os amigos todos os dias. A volta era um ritual: pegar o caminho para ver sua avó e só depois ir para casa, pelas ruas que ele subiu, desceu e brincou desde pequeno. Suas memórias mais saudosas são os dias em que a sala de aula era espaço de contação de história. Em uma roda, os meninos sentavam e riam inventando outros mundos.

“Tinha uma professora que tinha aula separada pra fazer uma roda de amigos para ficar conversando. Aí sentava todo mundo e ficava contando a história, pegava um livro e ficava contando as histórias, ela inventava história da mente dela para ficar divertido. Aí ficava passando tempo lá, era daora pra caramba. Ficava todo mundo junto.”

Ryan Alberto Cota, morador de Barra Longa, da comunidade de Gesteira 

Após o rompimento da barragem, Ryan acabou se distanciando de quase todos os amigos. Alguns ainda mantêm contato pelo WhatsApp ou marcam sessões de Free Fire, jogo online de ação-aventura, para passar um tempo juntos. O costume de visitar a casa da avó também se foi, pois ele e a família, depois de uma série de dificuldades para se assentarem em algum lugar, tiveram que se mudar para Barra Longa. No fim de 2015, foi estudar na escola Padre Epifânio e começou a sofrer um duro processo de adaptação e luto pela infância e juventude marcadas por perdas. O estranhamento com a cidade foi inevitável: ele não estava acostumado a vivenciar o centro urbano e nem a fazer amizades fora da comunidade de Gesteira.

Ryan Cota ao lado da tia Simone (esq.) e da mãe, Eva (dir.). Foto: Alexandre Coelho Melo

A transição ficou ainda mais difícil quando o garoto perdeu a avó e o tio por complicações de saúde física e mental, reflexos do rompimento da barragem na vida desses familiares que partiram. Após esses ocorridos, a depressão e ansiedade começaram a fazer parte dos dias de Ryan. Ele foi amparado pela mãe, Eva Cristina da Silva Cota, e pela tia, Simone, que buscaram ajuda e acompanhamento psicológico para o jovem, que afirma ter ficado traumatizado com tudo o que enfrentou nos últimos anos. Consequentemente, o seu desempenho escolar foi comprometido, mas ele diz que tem se dedicado para retomar o equilíbrio e a motivação que tinha na escola.

Ryan é sobrinho de Simone Silva, a professora da escola Padre Epifânio e uma das principais lideranças pelos direitos dos atingidos das comunidades de Gesteira e Barra Longa. Ela não se conforma com o silenciamento e com as injustiças, por isso tem se movimentado para fazer com que crianças, jovens e adultos conheçam suas origens para nunca deixar de lutar. “Tanto é que eu falo assim, ‘eu sou atingida pela mineração, eu estava na barriga da minha mãe, quando o primeiro mineroduto passou em Gesteira, em 1977’. A minha filha está na quarta geração atingida pela mineração… na quarta geração, você já pensou? Será que os filhos dos meus filhos ainda vão ser outras gerações atingidas?” O rompimento da barragem de Fundão acarretou em grande sofrimento para os moradores de Barra Longa, mas também uniu a comunidade, que tem se mostrado ativa na luta por reparação e cada vez mais interessada na busca por sua identidade, algo que tem sido trabalhado dentro da escola.

Resgate

Comunidade reunida durante reunião com o escritório de advocacia inglês Pogust Goodhead, no dia 5 de outubro de 2023. Foto: Alexandre Coelho Melo

Um dos projetos favoritos do estudante João Vitor faz parte justamente do resgate à história e memória de Barra Longa. A iniciativa surgiu por meio da professora Simone, em parceria com Maria Márcia, Elaine Martins de Morais – seu braço direito –, e toda a comunidade escolar que acredita no potencial da pesquisa. Elas lembram que quando aconteceu o rompimento e o município entrou para a extensa lista de territórios atingidos, as pessoas começaram a perguntar sobre as origens de Barra Longa. Mas, de acordo com Simone, a cidade não tinha sua história escrita e foi essa falta de registros que lhe motivou a estudar e a realizar levantamentos de informações a respeito de Barra Longa, da formação da comunidade de Gesteira e das populações que habitam o local.

Atualmente, a comunidade escolar está engajada no projeto, mas nem sempre foi assim. Simone revela que por muito tempo houve um “silenciamento pedagógico” no ambiente. De acordo com Adriane Cristina de Melo Hunzicker e Maria Isabel Antunes-Rocha, no artigo O silêncio pedagógico como prática educativa no contexto do rompimento da barragem de Fundão-Brasil, o silêncio pedagógico é evidente em escolas que estão situadas no contexto da mineração, mas que não refletem sobre as consequências da atividade. Nesse sentido, “diz respeito à escassez e/ou à ausência de aspectos ligados à mineração e seus impactos na prática curricular”, afirmam as pesquisadoras. Elas elencam algumas razões pelas quais as comunidades não discutiam o tema:

  • Os professores não sabiam que existiam barragens próximas às escolas;
  • Desconhecimento sobre os impactos da prática minerária;
  • Idealização da mineração como prática econômica na história brasileira;
  • Vínculo socioeconômico da população com as empresas mineradoras;
  • Atuação das grandes empresas mineradoras junto às escolas;
  • Invisibilidade das diferentes práticas minerárias;
  • Distanciamento geográfico dos empreendimentos minerários em larga escala em relação às áreas de habitação;
  • Desconhecimento da (in)segurança de barragens localizadas próximas às escolas ou em rota de circulação de transporte escolar;
  • Formação inicial e continuada de professoras(es) com pouca ênfase na articulação entre contexto econômico e prática escolar.

Em Barra Longa, na escola Padre Epifânio, os professores não tratavam das questões relacionadas aos danos causados pela mineração, mas atualmente não aceitam o silêncio e acreditam que será por meio da educação que vão fortalecer a luta contra as violências e injustiças que sofrem em decorrência do crime socioambiental. “É através da educação que a gente vai conseguir romper as barreiras e a nossa escola tem deixado isso muito claro”, afirma Simone.

Toda a dedicação dos professores e estudantes com as pesquisas sobre o município teve visibilidade no desfile que aconteceu em 07 de setembro de 2023. Simone e Maria Márcia lembram com entusiasmo das apresentações que, por meio de um teatro encenado pelos alunos, contaram a história de Barra Longa de 1.700 aos dias de hoje, marcados pela luta contra a mineração. Em sala de aula, os alunos aprendem que são os guardiões de suas histórias. A professora Simone conta orgulhosa que “hoje, cada aluno sabe se a sua comunidade é quilombola, ribeirinha ou indígena”. E dessa forma, professores e professoras têm trabalhado a memória do território ao qual pertencem enquanto patrimônio que deve ser reconhecido, documentado e respeitado.

“A gente está construindo a história e está valorizando o conhecimento dos nossos alunos. O que mais aconteceu nesse rompimento e até hoje: não tem valorização do conhecimento do território, esse conhecimento é desprezado, tanto é que se você vê aí no projeto da reparação, você só escuta a palavra ‘Expert… expert aqui, expert ali’, mas o conhecimento do território que é a bagagem que a gente traz desde o ventre da mãe da gente, em nenhum momento é respeitado.”

Nós temos a boa vontade, nossos alunos, nossa escola de portas abertas, porque a nossa escola é para pular os muros. Eu acho que o ensino não pode ser só quadro e giz. Tem que ser muito mais além e ter potencial para preparar nossos alunos para o mundo, até mesmo para serem defensores do seu território. Porque se o aluno não tem conhecimento, ele não consegue defender o seu território, ele não vai saber que o seu território tem direito. E a gente enquanto comunidade tradicional, por que Barra Longa é uma comunidade tradicional, em nenhum momento somos tratados ou respeitados como comunidade sujeita de direitos.”

Simone Silva, moradora de Barra Longa, da comunidade de Gesteira

Elodia Honse Lebourg, pesquisadora e doutoranda em educação pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), também acredita que, antes de mais nada, as pessoas atingidas precisam ser ouvidas, sobretudo, os jovens. “Esses jovens precisam ser ouvidos. Eles precisam ser ouvidos na escola, eles precisam ser ouvidos mais do que já são nas famílias. Eles precisam ser ouvidos pela Comissão dos Atingidos, seria importante colocá-los em espaços comuns”, enfatiza a pesquisadora.

Entre os ambientes de socialização, as escolas são os espaços centrais que promovem o encontro desses grupos. Nesse aspecto, é necessário que esse local e os profissionais da educação saibam acolher as questões que atravessam as juventudes atingidas que, segundo Elodia Lebourg, são um grupo que não aparece com frequência em estudos acadêmicos, mas que deveria, já que a sociedade deve estar mais sensível a essa juventude que também é a esperança de futuro: “Eles são quem vão viver o que virá”, afirma.

Texto: Karine de Oliveira Costa e Yasmim Paulino
Apuração: Alexandre Coelho Melo, Amanda Almeida, Karine de Oliveira Costa e Yasmim Paulino
Edição: Karina Gomes Barbosa

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