Dívida de empresa terceirizada

O rompimento da barragem de Fundão atingiu diretamente e, também, indiretamente diversas pessoas. José João Borges é um exemplo do segundo caso. Morador de Monsenhor Horta, não teve sua casa invadida pelo rejeito de minério, mas foi contratado para prestar serviço para a Vetor Construções, uma terceirizada da Samarco, pouco tempo depois do crime das mineradoras. A empresa não honrou suas dívidas com José, que, hoje, luta na justiça para receber o que lhe é devido. 

Por José João Borges

Com o apoio de Wigde Arcangelo

Quando a barragem rompeu, essa empresa, a Vetor Construções, me procurou para que eu oferecesse alimentação para ela. Ela operava nos canteiros de obras de regiões atingidas pela lama, em Ponte do Gama, Paracatu, essas regiões aqui mais próximas. Como eu estava desempregado, montei uma cantina para fornecer a alimentação.

 Até aí tudo bem: eu atendia ao pessoal e, nos primeiros meses em que atendemos, eles pagaram direitinho. No último mês, a empresa nos deixou uma dívida que, hoje, seria em torno dos 20 mil reais. O meu advogado entrou em contato com o advogado da empresa, os dois foram até o juiz e fizeram um pacto comigo, de me pagarem parceladamente. Esse montante seria dividido em 10 vezes, mas, até hoje, não me pagaram. 

Meu advogado entrou em contato com a empresa e ela disse que quem tem que assumir a dívida é a Samarco. Na época, a Renova não tinha assumido ainda, então ela diz que a responsabilidade não é dela. A Vetor alegou que a Samarco iria quitar os débitos que ficaram, mas a mineradora disse que não assume dívida de terceirizada. A empresa estava a serviço da Samarco e eu prestei serviço. Hoje, eu estou numa situação em que estou devendo, venho pagando as minhas dívidas parceladamente, sem condições, pois estou desempregado nessa pandemia. 

O meu advogado pediu para esperarmos o fim da pandemia, mas as minhas dívidas não esperam. Aí eu fico nessa situação, a minha esposa tem problema de pressão, reumatismo, toma remédios e eu tenho tantas dívidas… Para as empresas, esses montantes não são nada, mas, agora, para mim, isso é muito dinheiro.

Durante a pandemia, fornecemos umas marmitas, mas em baixa escala, porque somos só eu e ela, ela também não pode fazer, então eu faço e é o que está segurando a onda, é pouquinho. Mas como você trabalha se não tem como repor?

Iria melhorar muito se eu fosse pago, pelo menos aqueles credores que vêm constantemente à minha porta me cobrar, eu teria como quitar as dívidas. Já ajudaria a aliviar a minha mente. Imagina, você ter um dinheiro a receber para pagar seus credores, mas não ter acesso a ele: fica difícil. 

Quando você deve, como você coloca a cabeça no travesseiro e dorme um sono direito? São noites e mais noites perdidas, só imaginando como você vai tirar o dinheiro para pagar aquelas pessoas. E não sou só eu que não durmo, a minha esposa também não. O que me atinge, atinge ela também. 

José João Borges, morador de Monsenhor Horta