“Nada mais justo do que buscar, na casa do criminoso, a reparação pelo crime”

Grupo de pessoas protesta em frente a corte na Inglaterra

Pela primeira vez desde o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, uma pessoa atingida de Bento Rodrigues, subdistrito devastado pelo rejeito de Vale/Samarco/BHP, entrou em um tribunal para discutir uma indenização coletiva. No dia 5 de abril, quando o crime completou 6 anos e 5 meses, o Tribunal de Apelação das Cortes Reais da Justiça do Reino Unido, em Londres, recebeu Mônica dos Santos, moradora do Bento. Se for acolhido pela Justiça do Reino Unido, este será o maior processo em número de vítimas e o segundo em valores na história da Inglaterra. Mauro da Silva, também morador do Bento, participou com Mônica de um ato em frente ao tribunal, no dia 8 de abril, contra a falta de justiça e reparação após mais de seis anos do crime da Samarco/Vale/BHP.

Por Mauro Silva e Mônica dos Santos 
Com o apoio de Joice Valverde e Tatiane Análio

Em primeiro plano, duas mulheres e um homem protestam contra mudanças climáticas, os três miram a câmera
Foto: Rede Igrejas e Mineração

Essa audiência ocorreu do dia 3 ao dia 8 de abril. Na realidade, foi uma audiência de recurso, uma vez que o juiz de primeira instância entendeu, diante dos argumentos da BHP, que não era o foro especial para o julgamento da causa. Foram diversos argumentos. O juiz de primeira instância não leu o processo, não entendeu a complexidade e a gravidade da situação e deferiu o direito para BHP. Foi uma semana de audiências. Então, como aconteceu, a nossa esperança agora era que os três juízes lessem todo o processo e entendessem.

Mauro Silva, morador de Bento Rodrigues

Eu e Mauro fomos convidados pelo escritório que está movendo a ação na Inglaterra para acompanhar a audiência lá em Londres. Fomos e participamos de quatro manifestações, demos entrevista para jornais e telejornais locais e do Brasil. Reunimos com representantes do governo, do parlamento, com a sociedade civil e movimentos sociais. Aproveitamos para reunir também com alguns investidores com os quais conversamos desde 2018, na nossa primeira ida. Várias pessoas das comunidades já participaram dessas conversas, o que é muito importante para dar dimensão aos acionistas das violações que acontecem no nosso território. Inclusive, desde o princípio, chamamos eles para conhecerem a região e agora está marcada para agosto uma visita desse grupo ao Brasil, que, por causa da pandemia, não pode acontecer antes, assim como a emissão de um relatório feito por eles, fruto dos nossos diálogos e com a nossa contribuição, sobre todo o processo.

 Mônica dos Santos, moradora de Bento Rodrigues

A partir dos argumentos dos nossos advogados, que foram muito bem, a gente tem muita esperança. Os advogados ingleses são muito cautelosos em dizer que estão confiantes, mas, pelos desdobramentos e pela postura dos advogados da BHP, às vezes de maneira atabalhoada, a gente vê que eles estão mesmo em situação difícil. Talvez os juízes se apressem, mas eles têm entre 45 e 90 dias para dar o resultado final, se a Corte Inglesa de Apelações acata ou não o pleito, e aí é aguardar para ver o que há nisso tudo.

Mauro Silva, morador de Bento Rodrigues

A gente acredita que justiça nunca é demais, uma vez que a justiça brasileira não tá dando conta e não tem respostas à altura da grandiosidade que é o crime. E a gente vê, pelos recursos das empresas, principalmente da BHP que é a parte na ação, que elas temem serem submetidas à justiça internacional, uma justiça que a gente acredita ser séria, ser célere e ser imparcial. A justiça brasileira tem suas limitações e, muitas das vezes, se deixa intimidar ou se acovarda diante do poder econômico e da influência política de empresas multinacionais, das duas maiores mineradoras do mundo. A BHP é a maior delas e nada mais justo do que buscar, na casa do criminoso, a reparação pelo crime.

Mauro Silva, morador de Bento Rodrigues