“Tem como ser feliz assim?”

Dona Mirtes está em uma sala de aula antiga, sentada em um sofá com forro azul. Ao fundo à esquerda, há uma cama de madeira e uma janela, à direita.

A escola municipal de Pedras, subdistrito de Mariana, não funciona há muitos anos. O pequeno pátio recebe, uma vez por semana, profissionais da Secretaria de Saúde para atender à comunidade. Ao fundo, a sala de aula ainda exibe marcas de outros tempos: restos de um alfabeto colado na parede, um mural de aniversários desbotado. Num canto, livros antigos, empoeirados, com forte cheiro de mofo, se amontoam num armário de ferro, perto de adereços de uma quadrilha espalhados no chão. Os vestígios de estudantes e professores(as) que não ocupam mais o espaço convivem com camas, sofá, cômoda, espelho, mesinha com mantimentos. É ali que Dona Mirtes da Luz Gonçalves das Graças mora, desde a pandemia de COVID-19, quando a casa dela, há poucos metros, foi interditada pela Defesa Civil.

O imóvel em que viveu por 35 anos escapou, em 2015, do rejeito da Samarco, Vale e BHP, mas a máquina minerária chegou à sua porta quando a Renova passou a movimentar caminhões pesadíssimos na região, o que causou trincas e rachaduras em várias casas, inclusive a dela. 

Após reclamações, o fluxo cessou, mas não sem destruição. Desde então, Mirtes tenta, sem sucesso, ser reparada para conseguir consertar sua casa. O quarto onde Mirtes dormia tem trincas do teto ao chão, assim como os outros cômodos da casa, onde as rachaduras avançam na laje.

Impedida de voltar ao lar que construiu com as próprias mãos, desacostumada a viver em Mariana e ignorada pela Renova como atingida, restou à Mirtes se abrigar em uma sala de aula da antiga escola em que seus filhos estudaram, com insegurança, sob risco de infiltrações e profundamente triste. 

Por Mirtes da Luz Gonçalves das Graças
Com o apoio de Karina Gomes Barbosa

“Vim pra cá depois da pandemia. Tava na minha casa, a casa começou a abrir, trincar. Foi abrindo. O meu local é aqui, a minha vida toda é aqui, meu trabalho todo foi aqui, todo mundo me conhece. Aí começou aquelas trincadura, rachadura, eu fui atrás do pessoal da Renova, nem satisfação eles davam, nada, nada. Fui atrás deles, conversei com eles, pedi pra arrumar um barraquinho pra mim, ninguém fez nada! A minha casa ficou cai, não cai. E eu indo atrás, mandando foto, ninguém faz nada. Quando eu ia lá: “ah, ninguém tá sabendo”. 

Fui pra Defesa Civil. Ela veio, tirou foto, fez tudo que tinha que fazer. Fui chamada na prefeitura para poder alugar um local [com aluguel social], pagava 300 contos, eu inteirava o resto, mas não sei onde eu ia achar aluguel nesse preço… 

E eu com remédio pra comprar, sem trabalhar, sem condição de trabalhar, usando remédio forte. Uso remédio pra dormir, uso remédio de depressão. E tem vez que ainda não durmo. Não tem como dormir. Hoje eu não queria estar nessa situação, não. Eu queria tá naquela casa que corri atrás, fiz tudo pra tá nela e não tô. Eu tô nesse desespero, de déu em déu, porque isso é sofrimento, deita, não dorme. Isso é uma tristeza pra mim.

Toda vez que eu vou lá na Renova, dizem: “tá oiando”, “ah, não tem resultado de nada”, “não tá sabendo”. A Renova ofereceu 7 mil reais pra mim. O que vou fazer com 7 mil reais? Não vai dar nem pra pagar os remédios que eu já comprei. Não dá pra fazer nada. 

Eles tão fazendo hora com minha cara, me fazendo de idiota, me fazendo de besta. Minha saúde, ó, foi tudo pra lama. Não é querer demais, não, é que minhas coisas foram destruídas. Eu tô ao Deus dará. 

Se não fosse amigos, filhos, família, eu não existia mais não. A Renova nunca veio aqui. Minhas camas, minhas coisas tavam em tempo de estragar. Não é trem de rico, não é boa. É de pobre, com minhas alegrias. Pra mim, é uma alegria ter isso aí, ó, porque foi meu suor. 

Não existe uma coisa dessa, você lutar a vida toda, eu fiz minha casa nos braços. Trabalhei de servente pra fazer minha casa, pensando: “o dia que eu não guentar trabalhar, eu tenho um teto pra mim ficar embaixo dele”. E hoje eu não tenho. 

Eu plantava, pra todo lugar, pros outros, horta. Colhia verdura, tudo que você imaginasse eu colhia, porque não tinha preguiça. Eu plantava tudo que existia, que era bom pra saúde, eu plantava. Hoje tá lá, tudo cortado de formiga. Eu tinha de tudo pra hoje não ter nada?

Eu fico aqui, vou lá em Mariana, volto. Lá tenho meus filhos, irmã, minha mãe, mas eu não me sinto bem sem o meu local. O meu local é meu.

É revoltante demais. Você não tá pedindo esmola, não. Você tá atrás do que é seu, do que você fez a vida toda, pra hoje eu tá nessa situação, nessa revolta, nessa tristeza.

Já tô perdendo coisa demais, tô perdendo minha saúde, tô perdendo tudo. Se eu der um infarto e morrer por falta de recurso deles, pelo menos esses trem aqui servem pros meus filhos. Eles pegam essas coisinhas. Se eu deixar na casa, vai cair tudo, quebrar tudo.

Tem dia que deito, durmo um pouquinho, começo a chorar, vem tudo. Eu aqui, gente, o que é isso? Preciso disso? Fiz minha casa, trabalhei demais, me machuquei, perdi muito sangue. Pra hoje, eu tá a Deus dará. 

Quando a gente tá nessa situação, não quer saber de nada, quer saber de ficar quieta. Eu subo, ando mato afora, não tô indo muito mais em casa porque não tava me fazendo bem, na minha cabeça. Subo lá pra cima… Vou andar pra distrair, né? 

Antes, minha saúde era muito boa, comia o que plantava, fazia coisa pra vender. Agora só Deus. Agora tenho de ficar provando de tempo em tempo uma coisa que tá provada, que não precisa provar. O que eles tão fazendo com a gente não é coisa que você consegue imaginar. Eu já tenho prova, tenho testemunha, tenho eu como testemunha, tem a casa, tem a conta, tem tudo. Tem o pessoal que sabe quanto tempo fico aqui. Quando precisaram da minha casa pra alugar, usaram. Agora que não vale mais, não reconhecem minha casa…

Meus netos vinham sempre brincar. Outro dia levei minha neta na casa, ela caiu no choro. Meus pais falavam, a gente tem que trabalhar, a gente tem que ter o teto. Falei isso pros meus filhos. Eu pensava que tinha meu teto. Meu pai falou tanto comigo, fiz tudo direitinho que ele mandou, e hoje não tenho. Fiz mas não tenho. 

Às vezes, não consigo dormir, fico sentada, pensando em tanta coisa que eu fazia, tinha minhas coisas tudo, minha cerâmica linda, jabuticaba, laranja, graviola, lichia, mandioca, abóbora. Sou apaixonada pela minha casa. Era pra tá na casa minha. Tem como ser feliz assim?

Quando você tem tudo na vida, senta alegre e pensa: “ó, eu tô feliz”. Quando você não tem, pensa o que vai ser de mim de agora indente? Hoje eu tô aguentando vir sentar aqui, pensando nas coisas que eles tão destruindo, não querem fazer nada pra mim. Daqui uns dias, será que vou ter força de vir, levantar, sentar? Você põe muita coisa ruim na cabeça. Sinto que tô morrendo junto com minha casa.”

Mirtes da Luz Gonçalves das Graças, moradora de Pedras