A silagem e a sobrevivência dos animais

Desde o rompimento da barragem de Fundão, as empresas criminosas ficaram responsáveis pelos cuidados e pelo custeio dos tratamentos dos animais dos(as) atingidos(as). A Renova, criada com a função de reparar os danos causados, lida diretamente com alguns dos animais que foram levados para a Fazenda de Castro, em Acaiaca. No entanto, os(as) atingidos(as) que escolheram ficar com os seus animais ou que vivem em regiões mais distantes, ao longo da bacia, recebem o auxílio da silagem, alimento tradicionalmente usado na pecuária. Desde o início do processo de reparação, no entanto, a Renova negligencia os cuidados com esses animais que dependem da silagem. A produtora rural Maria Célia Albino de Andrade afirma que teve de lutar durante mais de dois anos para que seus animais recebessem os cuidados necessários para voltarem a produzir. Ainda que a decisão judicial seja de que a Renova siga fornecendo a silagem até que o solo e a água estejam propícios à produção, muitos(as) atingidos(as), como Marino D’Angelo, veem uma piora considerável na saúde de seus animais, que não recebem a quantidade adequada do alimento e apresentam sinais de desnutrição.

Por Maria Célia Albino de Andrade e Marino D’Angelo

Com o apoio de Júlia Militão

Foto: arquivo pessoal de Maria Célia Albino de Andrade

Quando a Renova entrou, a primeira preocupação dela foi cortar a silagem. Cortou a silagem dos atingidos e, desde então, eu passei mais de dois anos com uma papelada na mão, rodeando tudo quanto é reunião que tinha, pedindo comida pra esses animais, porque a minha terra já não produzia mais. Com o rompimento, tudo o que eu plantava não dava produção. Os animais começaram a morrer de fome, eu tive um índice altíssimo de mortalidade de bezerros, vacas. Perdi muita criação, as vacas estavam abortando, não davam leite… A Fundação Renova não se importa nem com atingido, quanto mais com animal de atingido. Você fazer uma coisa com tanto carinho e ver uma bezerra morrendo, um bezerro, uma vaca abortando e morrendo também por falta de comida: isso é muito triste, é de doer o coração. Era um desespero a cada um que morria. 

Maria Célia Albino de Andrade, moradora da zona rural de Conselheiro Pena

A Fundação, para mim, omite a parte de responsabilidade dela em cuidar dos meus animais. Oferece uma alimentação que não é ideal, em pouca quantidade. Já perdi animais aqui por conta da alimentação. A Fundação Renova sabe que o tanto de alimento que eles me dão não é suficiente. Veio um veterinário aqui, da Renova, e deixou um laudo, em que informa que eles estão desnutridos. A própria empresa que é responsável em cuidar da alimentação dos meus animais me dá um laudo que eles estão desnutridos. É possível isso?

Marino D’Angelo, morador de Paracatu de Cima

A Renova, em momento nenhum, aceitou tratar dos animais, nós temos a silagem hoje, porque foi uma decisão do juiz da 12ª Vara. Ficou acordado seis meses de silagem, de maio a outubro. Nós pedimos por seis meses, porque a Renova falou que a ATER (Assistência Técnica e Extensão Rural) viria a campo recuperar nosso solo, mas, devido à pandemia, isso não aconteceu. O juiz disse que, enquanto a Renova não provar no papel, não vir recuperar nosso solo e provar que está tudo bem com a água e com o solo, ela tem que continuar fornecendo a silagem. Ela voltou a fornecer, dizendo que seria até dezembro, mas essa não é a decisão do juiz. A silagem vai continuar, eu não sei por quanto tempo, mas eu tenho muito medo dessa questão de laudo. Nas minhas análises, o solo está muito ruim. Eu tenho muito medo dessa trocação de empresa, de análises que não sejam verdadeiras, e a gente perder isso. A silagem, pra mim, hoje, é tudo. Dentro desses seis meses, o leite, que estava dando um pouquinho, logo aumentou. As vacas que estavam abortando e não estavam dando cio, todas deram o cio e ficaram prenhas. Eu não tive histórico de nenhuma mortalidade, de maio pra cá. Então, assim, a silagem foi de grande retorno financeiro e emocional na minha vida. Eu consegui sair de um quadro de estresse muito grande na minha vida, de depressão, e hoje, com a silagem, estou conseguindo fechar meu mês e pagar as minhas contas. Aquele curral, pra mim, é o equilíbrio da minha vida. Quando lá tá tudo bem e, aqui, os meus filhos estão bem, a minha vida fica bem. 

Maria Célia Albino de Andrade, moradora da zona rural de Conselheiro Pena

A silagem está sendo entregue. O problema é que a Renova congelou a vida do atingido no dia 5 de novembro de 2015 e fornece o mesmo tanto de silagem cinco anos depois, como se os animais não procriassem, como se a gente estivesse igual uma estátua e voltasse a movimentar só quando a Renova achar que deve. Hoje, a gente vive uma vida imposta, a gente não tem as rédeas da nossa vida mais, a maioria dos atingidos mora em uma propriedade que não é dele, casas que não são deles. Às vezes, os animais vão crescendo, o rebanho vai crescendo, mas não tem como você acompanhar esse crescimento, porque você não tem renda suficiente para tratar dos bichos. Você não pode plantar um capim, porque mora numa propriedade que não é sua. Você não pode se organizar para ter um trato dentro da realidade que sempre teve. 

Agora eles falaram que vão cortar a silagem a partir de dezembro. Eles estão querendo fazer em forma de pagamento em dinheiro: em vez de entregar a alimentação, entregaria dinheiro. Eu não concordo. Atrás dessa proposta, eu só vejo crueldade, porque, depois, eles só vão diminuindo a quantidade de dinheiro. E não se resolveu nada até hoje na vida das pessoas. Em cima da lama não se produz. Então a gente só vê cilada armada pros atingidos.

Marino D’Angelo, morador de Paracatu de Cima

Eu acho que essa silagem mesmo depois da terra em campo, trabalhando, não pode ser cortada de imediato. O solo está tão ruim, que não vai conseguir recuperar em um primeiro momento. Quando a gente fala dos animais, a gente está falando de vidas também e, quando a gente fala de vida, tem que ter um cuidado especial. A silagem, eu posso definir como o AFE (Auxílio Financeiro Emergencial). Do mesmo jeito que as famílias têm o AFE, os animais têm que ter a silagem garantida. Tem que ter todo o cuidado e todo o respeito com esses animais. Em qualquer momento que a Renova cortar essa silagem, eu volto à estaca zero de novo. Hoje eu estou nas mãos da Renova e preciso dessa silagem, porque a minha renda financeira depende muito desses animais. Eu não tenho outro emprego, não tenho outra renda, eu dependo exclusivamente dos animais. E eles necessitam de uma condição de vida sustentável, que é a comida e a água, sem essa condição, eles não podem me proporcionar nada disso. 

Maria Célia Albino de Andrade, moradora da zona rural de Conselheiro Pena

O que eu quero, na realidade, é que isso seja resolvido, porque, se a Fundação Renova não vai assumir o papel que ela se propôs, de reparar os danos causados, que ela devolva a vida da gente. A gente não dependia disso. Eu quero a rédea da minha vida de volta. Hoje eu sou vítima do crime causado pelas mineradoras, mas o condenado sou eu, que estou há cinco anos aqui sem poder me organizar, sem poder colocar meus planos e objetivos em andamento, porque a Fundação Renova é omissa, é ineficiente. 

Marino D’Angelo, morador de Paracatu de Cima