Precisamos do nosso jornal vivo e forte!

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Mariana, 24 de janeiro de 2022

Desde fevereiro de 2016, as comunidades atingidas pela barragem de Fundão possuem um importante instrumento de comunicação: o Jornal A SIRENE. Nascido de demandas das próprias pessoas atingidas, em parceria com a Arquidiocese e a UFOP, entre outras organizações, o jornal tem, desde o início, o propósito de garantir informações de qualidade e de confiança para todas as pessoas atingidas. Nele é contada a história desse povo de luta que, desde novembro de 2015, enfrenta as consequências do crime das mineradoras Samarco, Vale e BHP em suas vidas. São histórias de resistência cotidiana, sobre o que mudou nas vidas das famílias atingidas em decorrência do maior crime-desastre socioambiental do Brasil. Nesses seis anos de existência, o Jornal A SIRENE tem trazido, em cada edição, memórias sobre os modos de vida de antes do rompimento da barragem e abordado as perdas, os danos e a dor das pessoas atingidas, mas sem trazer desesperança. Para nós, esse é um dos vários diferenciais do Jornal A SIRENE, um veículo de comunicação popular que atua dentro do propósito de lutar e esperançar, para não permitir que essas histórias caiam no esquecimento.

O Jornal A SIRENE é, para nós, um contraponto estratégico ao poder comunicacional das mineradoras e da mídia comercial. Enquanto eles se interessam muito mais em tratar as pessoas atingidas como meras personagens ilustrativas de mensagens pré-fabricadas, com foco jurídico e números deturpados da reparação, o Jornal A SIRENE, por sua vez, aborda a dimensão sensível da realidade imposta às milhares de pessoas atingidas na bacia do rio Doce. O Jornal A SIRENE narra essas histórias sem desconsiderar os danos imateriais sofridos por essas comunidades, aquilo que é intangível e ao mesmo tempo essencial, mas que não é de interesse para as empresas e para a mídia comercial.

O jornal A SIRENE tem profundo respeito pela fala das pessoas atingidas, isso é perceptível nos textos que trazem depoimentos e mantêm o jeito de dizer próprio dessas pessoas. Isso tudo só é possível porque a equipe do Jornal A SIRENE é composta por jornalistas e por pessoas atingidas, que, juntos, fazem dele essa experiência única de comunicação popular. A equipe tem uma abordagem diferenciada com todos(as) os(as) colaboradores(as) atingidos(as), em apoio a uma escrita de si que respeita o tempo da pessoa que fala e que constrói, com ela, a narrativa que vai ser apresentada nas páginas de cada edição. O Jornal A SIRENE respeita a diversidade cultural e religiosa das comunidades atingidas, abarca a complexidade, a resistência e as denúncias necessárias, mas também apresenta a beleza, a força e a riqueza que há nesses territórios. Tudo isso pode ser percebido nos textos, mas também nas imagens potentes que compõem cada edição.

Desde o início, nós sempre estivemos juntos com o Jornal A SIRENE, empenhados na garantia do direito à informação e à comunicação para a população atingida. A equipe do jornal e os integrantes desta Comissão caminham lado a lado para não deixar o crime impune, para que toda essa dor e tantas histórias únicas não sejam esquecidas.

Em outubro de 2020, o recurso que garantia a sustentabilidade financeira do jornal, um dinheiro fruto de doações às pessoas atingidas e gerido pela Arquidiocese de Mariana, chegou ao fim. Desde então, o Jornal A SIRENE tem buscado novas fontes de financiamento para se manter vivo, mas essa insegurança financeira gera uma série de incertezas sobre a sua continuidade. Sem os recursos necessários, o jornal não tem conseguido pagar a equipe de forma apropriada, que está cada vez mais reduzida, e a versão impressa está suspensa. Diante desse cenário, declaramos abertamente nosso apoio ao Jornal A SIRENE, o jornal dos atingidos, feito com os atingidos e para os atingidos. O risco dessa experiência rica e fundamental para todas as pessoas atingidas terminar por falta de recursos é motivo de grande preocupação para esta Comissão, bem como de todas as comunidades atingidas na bacia do rio Doce. Nesse sentido, fazemos um apelo: não deixem o Jornal A SIRENE morrer. Precisamos do nosso jornal vivo e forte!

Comissão de Atingidos pela Barragem de Fundão de Mariana (CABF)