O que é fundamental para o “novo” Paracatu?

“Tijolo Fundamental”. Este foi o nome dado pela Renova ao grande evento montado para assentar o primeiro tijolo das 94 casas que ainda devem ser construídas no reassentamento de Paracatu de Baixo. Muita demora para algo tão fundamental. As famílias atingidas esperam há quase seis anos pelo direito de voltar para suas casas e as obras sequer têm um novo prazo para serem concluídas, uma vez que todo o reassentamento deveria ter sido entregue em 27 de fevereiro de 2021. A Renova acumula atrasos e desrespeito. A comunidade de Paracatu de Baixo viu o primeiro tijolo ser colocado mais de dois anos depois do evento montado para o início da construção das casas no reassentamento de Bento Rodrigues (que também segue inconcluso), em julho de 2019. Para a comunidade, este primeiro tijolo, mesmo que tardio, representa a esperança de ver o fruto de toda a luta finalmente tomar forma e também a memória das pessoas que partiram sem a oportunidade de viver este momento. No entanto, há ainda muitas outras reivindicações fundamentais para a reparação que continuam sendo ignoradas pela Renova. 

Por Anderson Jesus de Paula, Luzia Queiroz e Maria do Pilar
Com o apoio de Joice Valverde e Wandeir Campos

Moradores e moradoras de Paracatu de Baixo durante o evento | Foto: Joice Valverde

Pra nós, o fundamental era esse tijolo já vir com um marco de quando o reassentamento vai realmente ser inaugurado. Não é que a gente tá aqui com alegria, não é por causa do primeiro tijolo que colocou que é isonomia. Se colocou na outra comunidade, tem que colocar na nossa também, era ter feito isso no mesmo dia. Mas ali foi uma conquista, porque, se a gente não tivesse feito a mobilização, talvez Paracatu tava do mesmo jeito até hoje. O fundamental, pra gente, é eles honrarem os compromissos e não ficar protelando, nem empurrando com a barriga. É falar as coisas concretas, reais, e não ficar um dia fala uma coisa, outro dia fala outra coisa, “ah, mas isso não foi possível, ah, mas nós falamos com vocês”. Então o fundamental é honrar a palavra, que é o que a gente entende mais, porque, nessa região nossa, o empenho da palavra vale muito. Pra nós, o fundamental era já estar pronto, era a gente já estar na casa, seria já ter o dia da inauguração e o fundamental seria a gente não ter que ficar fazendo tanto movimento, tanta reivindicação pra isso. E chega de enrolar a gente, tem que chamar a gente quando a coisa for real e já caminhar pra um concreto mesmo.

Luzia Queiroz, moradora de Paracatu de Baixo

Fundamental é a empresa ter que colocar sentimento, porque eles não estão simplesmente construindo casas, eles estão dando a oportunidade que foi arrancada há quase seis anos de uma continuidade de uma história. Cada casa daquela é de uma família e cada família tem a sua história. Vai fazer seis anos que essas famílias pararam as suas histórias nas suas comunidades. Então tem que ter respeito, serenidade no que estão fazendo, porque as pessoas precisam disso, e muita transparência. Essa construção do reassentamento do novo Paracatu de Baixo precisa acalentar os corações das pessoas que estão angustiadas, porque essa espera é muito dolorida. A gente espera que a empresa não quebre ou não deixe mais marcas e feridas, tanto no pensamento como no coração dos atingidos, que estão à espera das suas novas residências, das suas novas histórias, da continuidade das suas histórias e da alegria que é ver as pessoas voltarem para as suas casas. 

Maria do Pilar, moradora de Paracatu de Baixo

A Renova deveria ter vergonha de fazer aquele evento daquele jeito com a demora e com a ineficiência do trabalho deles. Eu não vejo desculpa, eu não vejo uma nota falando que eles reconhecem os erros deles. Eles culpam tudo pelo atraso ou pelo não cumprimento das coisas. Ora é burocracia, ora é a prefeitura, ora é a natureza, ora é a pandemia, teve chuva, teve seca. Esse evento é até um desrespeito com as pessoas mais idosas da comunidade, com as famílias dos que já partiram e não viram isso. Teve aquele evento todo para autoridades, mas o fato é: e o prazo de conclusão? Não falam quando vão entregar tudo. Só sabemos que são 11 casas. Iniciaram a primeira, mas e aí? São 11 casas só e a comunidade não se resume a 11 casas. É um total desrespeito e aquele evento, pra mim, é a nítida celebração da incompetência e da demora. Quando o Ministério Público Federal, entidades e vários segmentos, pedem a extinção da Renova, aquele evento do primeiro tijolo, o “tijolo fundamental”, já justifica qualquer pedido extinção dela, por causa dessa demora, ineficiência e dos milhões e milhões de dinheiros que já foram gastos até hoje e que ninguém nem sabe como, quantos, o porquê e onde que foi, de fato, aplicado. 

Anderson Jesus de Paula, morador de Paracatu de Baixo