Em Santana do Deserto, Renova desrespeita direito à água e à moradia dignas

Homem parado em frente à plantação. Ao fundo, o rio de águas marrons

Mais de seis anos após o crime do rompimento de Fundão, pela Samarco, Vale e BHP, pessoas atingidas no distrito de Santana do Deserto, na cidade de Rio Doce, ainda sofrem com a supressão do direito à água limpa e com a insegurança habitacional. A comunidade, que vive às margens do rio Doce, convive, desde os anos 2000, com intervenções feitas por grandes empresas ao longo da bacia. Desde a construção da Usina Hidrelétrica Risoleta Neves, mais conhecida como UHE Candonga, inaugurada em 2001, até o rompimento da barragem de Fundão, em 2015, muitos foram os problemas no caminho dessas pessoas.

Atualmente, a Fundação Renova atua no local, com o suposto intuito de mitigar os danos causados, mas as ações realizadas pela instituição não agradam as pessoas, que se queixam da escassez hídrica, da demora para pagamento das indenizações e para reformar as casas, do fluxo intenso de máquinas pesadas, que compromete as estruturas de construções, e do descaso geral com a população. Boa parte desses problemas foram evidenciados no período chuvoso, pois o campo de futebol construído pela Renova começou a ceder, o que colocou novamente em risco moradores que vivem sob a obra, como Raimundo Oliveira.

Por Clara Ribeiro, Jeane Aparecida de Souza Silva e Raimundo Ribeiro
Com o apoio de Crislen Machado
Fotos: Jeane Aparecida de Souza Silva

Casa branca no meio do morro, gramado. Atrás da casa, erosão.
Foto: Jeane Aparecida de Souza Silva

“Aqui em Santana, somos ribeirinhos, fomos afetados e não somos reconhecidos como atingidos. Estamos sem água aqui, está saindo areia, não dá para lavar roupa nem fazer nada. Eles até fizeram um poço artesiano, mas nunca tivemos acesso. Além disso, já faz dois anos que a Renova nos tirou das nossas casas. Apesar de estarem pagando o aluguel, eles prometeram que, em cinco ou seis meses, iriam entregar as moradias, mas só estão enrolando o pessoal. Estamos morando em casa de aluguel, dependendo dos outros e ainda temos que lidar com o campo caindo, as ruas quebradas e, até hoje, não tivemos satisfação sobre como vão resolver essa situação. Faz oito dias que mudei e já exigiram que eu mude de novo, eu tô com o fêmur quebrado e não posso andar, mas eles mandaram eu sair. Meu marido está com a cabeça ruim, o vizinho com a pressão alterada, eu não consigo dormir nem comer direito.”

Clara Ribeiro, moradora de Santana do Deserto

Água passando por terreno erodido dos lados. Às margens, mata. Ao fundo, céu azul.
Foto: Jeane Aparecida de Souza Silva

“A obra aqui é um campo que eles fizeram. Fizeram em cima da nossa rede de água e tem uns três a quatro metros de terra por cima. O cano já quebrou umas três vezes e a comunidade fica sem água. Outra coisa: deu rachadura no campo e está descendo para cima das casas…” 

Raimundo Ribeiro, morador de Santana do Deserto

Barranco erodido com terra deslizada. Em volta, mata e grama.
Foto: Jeane Aparecida de Souza Silva

“A Renova fala que só vai trazer benefícios e melhorias, mas olha o que eles realmente fazem: colocaram quatro metros de terra em cima da rede que abastece a comunidade com água, ficamos sem abastecimento por vários dias e agora a estrutura ainda está cheia de rachaduras. Já pensou se o barranco desce? As pessoas morrem soterradas e eles não fazem praticamente nada para prevenir isso. Antes de ter essa obra, aqui não dava esse tipo de problema. A Renova chama isso de campo, mas só tem mato, não tem nada. Acabaram com um campo de 100 anos e criaram esse aqui que só traz transtorno para comunidade.”

Jeane Aparecida de Souza Silva, moradora de Santana do Deserto

Calçamento de rua danificado por buraco, erosão e peras soltas. Ao lado, pequeno morro.
Foto: Jeane Aparecida de Souza Silva

“Eu já fui à prefeitura, eu já conversei com o pessoal da Samarco e eles não fazem nada. A gente precisa de apoio de outros órgãos para ajudar o pessoal aqui da comunidade, pois não podemos contar com o prefeito e nem com a Samarco, apesar de serem eles os responsáveis pelos danos aqui na comunidade.”

Raimundo Ribeiro, morador de Santana do Deserto

Vista de cima do morro de terra deslizada e árvores arrancadas. No segundo plano, abaixo, casas e o rio.
Foto: Jeane Aparecida de Souza Silva

“O que estão fazendo com a gente é uma injustiça. Estão pressionando a gente para sair daqui, mas não sabemos pra onde vamos. Querem parar as obras das nossas casas para tirar o barranco do campo que está descendo por cima, as rachaduras apareceram depois das chuvas e agora eles estão desesperados procurando casas para a gente mudar. Já disseram que vão nos despejar, que vamos sair por bem ou por mal, falaram que vão mandar a polícia tirar a gente e agora todos da comunidade estão passando mal sem saber o que fazer.”

Clara Ribeiro, moradora de Santana do Deserto