Oito anos de luta por reconhecimento, direitos e identidade

créditos: Marcella Torres

Ao longo de oito anos, enquanto os olhos do mundo se voltaram para o desastre-crime que causou prejuízos imensuráveis à natureza e à sociedade ao longo da bacia do Rio Doce, muitas pessoas atingidas permanecem invisibilizadas. 

Apesar de terem perdido entes queridos, casas e meios de subsistência, bem como o seu modo de vida, algumas pessoas permanecem excluídas dos programas de assistência, apoio financeiro e quaisquer meios de reparação fornecidos pela Renova. É o caso de Hermínio e Arildo, garimpeiros de Barra Longa, que, além de perderem todos os equipamentos de trabalho, foram forçados a se deslocar para outra área. De acordo com eles, essa nova área é muito mais limitada do que a região atingida e contaminada, o que dificulta a execução do garimpo. 

Em Bento Rodrigues, a família de Therezinha Conceição Alves ajuda a contar sua história. Lá, ela nasceu e cresceu. Na juventude, mudou-se para Belo Horizonte para ajudar a família. Após alguns anos, retornou a Mariana, mas suas raízes sempre permaneceram em Bento. A casa em que ela e seus irmãos nasceram e cresceram estava lá e era cuidada por um deles. Em 2015, quando a barragem se rompeu e destruiu Bento Rodrigues, Therezinha tinha 88 anos e enfrentava complicações de saúde. Quando a família buscou indenização pelo desastre-crime, a resposta que receberam foi que Therezinha não era considerada atingida.

Por Alexandre Augusto Marques da Silva, Ari da Silva, Therezinha Conceição Alves, Benedito Alves, Hermínio do Nascimento e Arildo Domingues Teixeira dos Santos

Com o apoio de Marcella Torres e Duda Lima

“O que a gente fica triste é que ela [Therezinha] se sacrificou, sacrificou a vida dela todinha pela família dela. Nós, eu, minha mãe, minhas tias. Nós só estamos aqui graças a ela, porque, quando o nosso avô, pai da minha mãe, abandonou elas lá, foi ela que pegou a minha mãe, minhas tias e trouxe para o Bento, entendeu?”

Alexandre Augusto Marques da Silva, sobrinho-neto de Therezinha e Benedito

“Nós não queremos só dinheiro, não. Nós queremos identidade, ser reconhecido. Porque não é justo que eles venham aqui, tiram os nossos minérios, destroem as nossas nascentes, a nossa mata e depois ainda saem dando risada, olhando para trás.”

Ari da Silva, pai de Alexandre

“Eu tirava ouro. Quando não tava no ouro, tava quebrando pedra, enchendo caminhão de carvão. Nós enchia lá coisa de 70 caminhão de carvão todo dia, e ia pra Monlevade. Tinha caminhão da companhia, tinha caminhão particular. Saía [de Bento] de madrugada lá pra umas 2, 3 horas.”

Benedito Alves, morador de Bento Rodrigues

“Toda vez que a gente vai atrás da Renova, ela só diz ‘não’, ela nunca diz ‘vou resolver, vou achar, vou fazer isso’. ‘Não’: é só não que ela diz. Ninguém dá nenhuma assistência, Renova não dá nada, cê liga lá, tá em análise, tá em análise, não tem resposta. Ela não se preocupa com a saúde de ninguém, não se preocupa com a alimentação de ninguém.”

Hermínio do Nascimento, morador de Acaiaca

“Eu trabalhava com o Hermínio. Como os equipamentos dele foram embora, meu sustento, minhas coisas, foi tudo junto. A gente fez várias manifestações, a gente foi atrás, em Barra Longa, esses trem, e eles nada, não mandou assistência, não mandou nada.”

Arildo Domingues Teixeira dos Santos, morador de Acaiaca

Por: Marcella Torres