Papo de cumadres: o crime e a justiça

Foto mostra estrutura de garimpo artesanal na beira do rio

Clemilda e Consebida estão com a cabeça ruim diante da prisão dos Garimpeiros Tradicionais do alto Rio Doce.

– Cumadre Clemilda, eu tava aqui pensando antes da sua chegada… Aquela nota técnica, que nu CIF foi aprovada, num diz que nossa comunidade é tradicioná porque us nossos ancestrá que foi responsavis por este estado das Minas Gerais começá?

– Ué, issu é uma veudade. Cê ta falanu da nota que u Phancisco Filipe, u Erminio, u Papagaio e u Emmanué ajudô a gente a fazê?

– Issu, cumadre. Lá diz que samu comunidade tradiciná, portantu a ação truculenta das pulícia militá, civil e federá fez minha cabeça embaraiá. Será que a convenção 169 virou frô e u livru de lei ela só erve pra infeitá?

– Ês ta comparanu agente com us assassinu que invade terra dus índios pra suas riquesa minerá roubá, chegandu até a vida dus índio tirá. Nois garimpa pru ouro que nois tirá cumida prus nossus fiu comprá.

– Nu meio de tanta tristeza u nosso amigu Emmanué, que tantu nos ajudô, vil seu amadu pai desta terra pauti. Cumade, minina de Deus, uma coisa vô te falá, u nosso Emmanué, que antes era fiu, fez a transformação, passo já a muitu tempu cê pai dus tradicioná, mas agora recebe a confirmação. Num é pai de sangue mais de coração, e muitas vezes nesta vida istu tem maior validação, hoje ele é nosso pai pois antonte era irmão. 

– Tô com a panela nu fogo e num possu mais prosiá, mas vô dexá uma peugunta nu ar: se nois pagasse impostu iguar a Vale disse pagá, será que no território que a Vale minera nois também pudia garimpá?

Por Sérgio Papagaio