Na roça, tudo era bem mais saudável

Durante a pandemia, mais da metade dos domicílios brasileiros, 59,4%, estão em situação de insegurança alimentar*, segundo o estudo “Efeitos da pandemia na alimentação e na situação da segurança alimentar no Brasil”, conduzido por pesquisadores(as) da Universidade Livre de Berlim, na Alemanha, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais e a Universidade de Brasília. A transformação na alimentação das comunidades atingidas é uma preocupação anterior ao vírus Sars-coV-2, causador da Covid-19. As práticas de subsistência e a rotina dessas pessoas foram alteradas drasticamente no dia 5 de novembro de 2015, desde a capina até as panelas fartas de uma alimentação natural, produzida nos quintais das casas. Com o deslocamento para a cidade, as pessoas atingidas relatam a falta de uma alimentação variada, rica em nutrientes e livre de agrotóxicos. Além disso, parte dessa produção era fonte de renda de diversas famílias. Após o rompimento da barragem de Fundão, as pessoas que perderam as suas rendas passaram a ter o direito ao Auxílio Financeiro Emergencial (AFE), a fim de que as suas necessidades básicas, como a alimentação, fossem atendidas. No entanto, mesmo assim, o impacto na qualidade da alimentação é sentido. 

Por Geruza Luiza Silva (assessora técnica da Cáritas), Joelma Fernandes Teixeira, Maria Auxiliadora Arcanjo Tavares e Soraia Cristina Miranda

Com o apoio de Júlia Militão e Wigde Arcangelo

A insegurança alimentar é acarretada pela substituição de alimentos ricos em nutrientes por opções mais baratas, ela é classificada em três níveis pela Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA): (1) Leve – quando há mudança na qualidade dos alimentos ou preocupação com a falta de alimentos no futuro; (2) Moderada – quando há restrição na quantidade de comida para a família; (3) Grave – quando há falta de alimentos. Todos esses níveis podem causar impactos na saúde dessas pessoas, que se tornam ainda mais vulneráveis à contaminação pela Covid-19.

Quando a gente morava lá

Foto: Sérgio Papagaio

A gente tinha a renda da agricultura. Eu fazia queijo, cachaça, rapadura. A gente não comprava nada disso. Eu tinha horta, vendia verdura, tinha galinhas, vendia ovos… Hoje, eu não tenho nada, tudo tenho que estar comprando. Com o rompimento, teve toda essa mudança, eu tinha frutas, legumes, nunca comprei. Hoje, eu tenho que comprar de um tudo. 

Maria Auxiliadora Arcanjo Tavares, moradora de Paracatu de Cima

A gente mexia com bar. Eu plantava alface, tomate, limão… Inclusive, algumas coisas da horta me ajudavam a fazer algumas porções. 

Soraia Cristina Miranda, moradora de Paracatu de Baixo

Eu sou ilheira, agricultora na minha comunidade e levo para vender em Governador Valadares. Depois desse crime ambiental, acabou que atingiu tanto a minha alimentação quanto as vendas, porque as pessoas não queriam comprar e, até hoje, tem uma certa rejeição sobre os produtos que eu vendo. Com isso, fui impactada de várias formas na minha saúde. Por ser ilheira, a gente ia plantar, mas tinha uma linha larga armada para pegar um peixe, então o peixe era garantido a semana toda… Desde que eu nasci, nasci às margens do rio Doce, trabalhei com meus pais. Cresci ajudando o meu pai na pesca e na extração de areia. Então isso passou dos meus avós para o meu pai, e do meu pai para mim, e eu com minhas filhas. Nós que tocamos nossas ilhas, plantamos, colhemos… Por eu ter parado uma alimentação de qualidade como era a minha no meu cotidiano, quando eu comecei a sentir umas tonteiras, a suar frio, formigamento na boca, resolvi fazer uns exames achando que poderia ter sido contaminada pelos metais pesados. Por causa da falta do peixe no meu organismo, meu colesterol bom, que deveria estar no mínimo em 40 por cento, estava em 19. Por isso, desde então, eu tomo, há quatro anos, medicação. Também adquiri diabetes.

Joelma Fernandes Teixeira, moradora da Comunidade de Ilha Brava, Governador Valadares

Tem muita diferença. Quando a gente morava lá em Paracatu, tinha pé de limão, de jabuticaba, banana… A gente sente muito esse preço, os valores são muito altos. Aqui na cidade, a gente tem que comprar de tudo. Lá na roça, a gente criava galinha, matava e comia. Tínhamos porco, o que, na cidade, é impossível. Tínhamos frutas e verduras. A alta disso deu para sentir bastante no bolso. Além de tudo, aqui na cidade, a gente ainda consome com agrotóxico. Na roça, quando a gente planta, é bem mais saudável. Então a saúde da gente aqui já é um ponto bem negativo devido ao rompimento, aí veio a pandemia e acabou piorando muito mais.

Soraia Cristina Miranda, moradora de Paracatu de Baixo

Nunca tive costume nenhum de tomar remédios, sempre foi remédio do mato, criei meus filhos todos com medicação à base de chá, ervas, pois é o que a gente colhe, faz e dá. A gente sai cedo para a lavoura e volta tarde, não tendo o hábito de colocar essas drogas no corpo, e isso só piorou a minha situação. Acumula o fato de não poder fazer um exercício, lembrando que isso também foi consequência do rompimento, pois a gente estava lá capinando, roçando, a gente pulava no rio, dava umas braçadas, voltava a capinar e assim era o nosso dia a dia. Acabou, nunca mais entrei no meu rio desde então. Faz cinco anos que não entro no meu rio e isso me dá uma tristeza enorme na minha alma. Dá uma tristeza muito grande lembrar dessa parte, porque o rio Doce, para mim, era muito importante. Hoje em dia, eu não tenho isso mais. A gente come as verduras que come, mas come com medo, a realidade é essa. Eu costumo plantar aqui em vasinhos para a minha alimentação. A gente come, mas com medo daquilo estar com contaminação dos metais pesados. 

Joelma Fernandes Teixeira, moradora da Comunidade de Ilha Brava, Governador Valadares

Olha, tudo tá cheio de remédio, de agrotóxico, e eles falam que a gente não deve comer nada por causa da lama. A nossa vida mudou muito, muito mesmo. A gente é acostumado a ter fartura, eu tinha leite pra tomar, eu tinha queijo pra comer, ovos, eu tinha rapadura, eu tinha cafezal, então não comprava pó de café. Hoje eu tenho que comprar de tudo. Eu tinha minhas verduras, que eu jogava pra galinha, os outros vinham na minha casa no final de semana, porque eu tinha saco de verdura, eles levavam pra casa. 

Eu sinto muita tristeza, porque largar de comer uma coisa natural, da minha roça, pra vir comprar coisa cheia de remédio, cheia de agrotóxico… Eu choro muito, porque, além de tudo, eles não querem pagar a minha renda que eu perdi. 

Maria Auxiliadora Arcanjo Tavares, moradora de Paracatu de Cima

A nossa alimentação não é mais 100%. Mandioca, inhame, cenoura, beterraba, tudo isso eu plantava, hoje compro quando dá. A gente evita plantar as coisas que vêm de debaixo da terra [por medo de contaminação por metais pesados]. No lugar do inhame ou mandioca no café da manhã, é pão francês. Coisa que a gente não tinha o hábito. Então impactou a alimentação. O peixe, eu não como mais, tenho medo de comprar peixe de Governador Valadares. Compro só os que eu sei que são de lagoas confiáveis, mas isso é um gasto a mais que eu não tinha. Nunca na minha vida eu tinha precisado comprar esterco para a produção na minha ilha, pois cada enchente que vem é um renovo de terra. Muitos lugares hoje não dão para plantar, porque é lama de rejeito pura. Nos terrenos mais arenosos em que não foi lama, temos que colocar esterco. A nossa situação ficou muito delicada, a nossa alimentação e orçamento ficaram muito comprometidos, além da Renova não nos reconhecer. 

Joelma Fernandes Teixeira, moradora da Comunidade de Ilha Brava, Governador Valadares

O Auxílio Financeiro Emergencial (AFE), garantido por meio da Ação Civil Pública (ACP), ajuizada em dezembro de 2015, é um auxílio destinado a todos aqueles que perderam renda após o rompimento da barragem de Fundão. Além do auxílio moradia, para aqueles que sofreram um deslocamento físico forçado, há o auxílio financeiro, destinado às compras, sobretudo da alimentação, a fim de que a pessoa atingida possa dar continuidade à sua vida. É muito importante a gente pensar nisso, porque aí entra a questão tanto da alimentação quanto da pandemia. Todas as pessoas atingidas tiveram uma modificação muito grande e muito intensa de suas vidas com o rompimento, então os modos de vida foram totalmente alterados. E eu destaco muito, principalmente, a relação com a terra e com o plantio. A questão da perda de renda também está ligada à comunidade em que eles moravam, inclusive, muitos(as) sobreviviam da produção. A lavoura aparece muito nessas solicitações de auxílio, por exemplo, muitas pessoas atingidas eram lavradores e trazem, nesse momento, ao falar da sua perda de renda também, o quanto isso mexeu na alimentação. Além disso, gostaria de destacar a relação da qualidade dos alimentos, que é diferente.  Os alimentos plantados por eles têm um significado muito maior, têm uma qualidade diferente. A gente não pode desconsiderar a alta dos preços, os alimentos estão muito caros e o auxílio não acompanha isso e também todas as novas condições às quais as pessoas atingidas foram impostas. Antes, talvez, elas pagavam uma luz menor e tinha outro tipo de oferta na comunidade, de todas as mercadorias no geral. Então viver na cidade é muito mais caro, inclusive a qualidade de vida também fica comprometida. É muito importante destacar, sobretudo, a mudança dos modos de vida e como essa mudança acarreta um comprometimento da alimentação. Há um empobrecimento muito grande das comunidades atingidas e esse empobrecimento não pode ser desconsiderado. Tudo o que aconteceu contribui para esse empobrecimento, para as chances que eles têm de se alimentarem, de darem continuidade às suas vidas…

Geruza Luiza Silva, assessora técnica da Cáritas

Foto: Sérgio Papagaio

Em tempos de pandemia

Além das dificuldades enfrentadas ao longo desses cinco anos, os(as) moradores(as) atingidos(as) lidam, hoje, com o contexto de enfrentamento da pandemia da Covid-19, em que a recomendação é que todos(as) cumpram o distanciamento social. Esse distanciamento tem sido agravado, além disso, por uma alta nos preços dos alimentos, da energia elétrica, da gasolina, entre outros. O valor do AFE, no entanto, continua o mesmo para algumas pessoas atingidas, enquanto outras tiveram parte desse valor cortado pela metade, e existem ainda aquelas que não foram reconhecidos e, portanto, até hoje não recebem o auxílio. Além de enfrentarem mudanças significativas na forma como encaram a alimentação, as pessoas atingidas vivem com uma renda que não atende a todas as suas necessidades básicas, principalmente nesse momento de crise.

Eu ainda consigo pegar alguma coisa na plantação da minha mãe, mas e esse povo que não tem para onde ir? Trancafiados dentro de casa, tudo teve um aumento. É o aumento de energia que dá para sentir bastante, já que todo mundo ficou dentro de casa. É o aumento do consumo, porque a gente fica ansioso e, quem tem criança em casa, a criança fica o dia todo querendo algo diferente para comer.

Soraia Cristina Miranda, moradora de Paracatu de Baixo

Hoje não tem renda de um centavo, de nada, até hoje. Já vai para seis anos e eu não tenho renda de nada. 

Maria Auxiliadora Arcanjo Tavares, moradora de Paracatu de Cima

A variedade das comidas foi afetada. Por exemplo, a gente tinha plantação de milho, que a gente mesmo consumia o fubá que a gente fazia, a merenda que era feita com broa, o angu que você mexia. A alimentação mudou completamente. Eu bato muito na tecla: a gente tinha uma vida saudável e hoje a gente consome muito mais química. A gente compra um tomate aqui e percebe que o gosto é bem diferente daquele que a gente comia. Em relação à alimentação, foi uma coisa que mudou muito. Veio o rompimento, já ficou ruim. Veio a pandemia, ficou pior. Eu sinto muito mais esses gastos em alimentação e energia elétrica. 

Soraia Cristina Miranda, moradora de Paracatu de Baixo

A relação com a alimentação era muito forte, muito intensa, nas comunidades. Com a pandemia, muitos atingidos têm trazido, sim, nos atendimentos, as dificuldades que estão enfrentando. A dificuldade de pagar aluguel, a dificuldade de criar os seus filhos, por causa desse novo cenário que é imposto. E como que o auxílio emergencial, muitas vezes, não dá conta, sendo que alguns atingidos não estão sendo nem reconhecidos para fim do auxílio emergencial. Ele não tem um caráter específico para a alimentação, como eu disse, mas é o que garante a alimentação digna à maioria dos atingidos. 

Geruza Luiza Silva, assessora técnica da Cáritas

E está tudo caro. Vou falar pra você a verdade, de primeiro, o salário dava pra comprar as coisas. Quando a gente tava na roça, gastava com pouca coisa, o dinheiro rendia. Hoje não dá pra você comprar de tudo. É muito triste, eu chorei demais e tenho chorado. A minha vida não é aquela que era não. A minha vida acabou, por tudo, porque muitas coisas que eu tinha, não tenho. Dá muita tristeza na gente e, além de tudo, não pagam o valor que a gente tem o direito de receber, ficam enrolando a gente. Tem muita gente morrendo de tristeza e de desgosto, porque as pessoas ficam na esperança de receber as casas, de ver as casas prontas, de cuidar da vida, e hoje tá tudo parado. 

Maria Auxiliadora Arcanjo Tavares, moradora de Paracatu de Cima

Se ainda estivéssemos em nossas casas, não seria totalmente igual antigamente, pois a nossa vida mudou completamente com a pandemia. Mas, logicamente, a gente não estaria sofrendo tanto como agora. Pois, independentemente da pandemia, nós tínhamos lá um lugarzinho para plantarmos nossas coisinhas, a gente comia bem, os gastos eram bem menores. Na cidade, é tudo muito complicado, com a pandemia, piorou muito mais. Em Paracatu, teríamos que ter o cuidado de não sair, mas, na roça, é bem melhor. Com o seu cantinho, você distrai, você vai plantar, vai criar porco, tratar de uma galinha. A cabeça ficaria bem melhor psicologicamente para enfrentar essa pandemia. Se ainda estivéssemos lá, estaríamos bem melhor, porque, hoje, a gente fica preso, o que gera muitos casos de depressão. Já estava ruim devido à mudança de hábito entre morar na roça e vir morar na cidade, psicologicamente já é um transtorno bem forte, aí você vem para a cidade e não tem como você ir no centro tomar um sorvete com o seu filho. O rompimento da barragem, mais a pandemia, acabou mais ainda com o psicológico dos atingidos.    

Soraia Cristina Miranda, moradora de Paracatu de Baixo