Saúde: marcas e desafios

Oito anos se passaram desde o desastre-crime provocado pela Samarco, Vale e BHP em Mariana e ao longo  da Bacia do Rio Doce. Apesar do tempo, as marcas persistem de maneiras distintas na vida das pessoas e comunidades atingidas. Crianças que não vivenciaram o rompimento, adolescentes que eram crianças na época, jovens que eram adolescentes, e adultas e adultos enfrentam dilemas únicos, refletidos em sua saúde física e mental. 

Não estamos diante de um evento passado, mas de um processo em curso. O apoio individual e comunitário, assim como a participação ativa em eventos e espaços de reivindicação de direitos, são cruciais. A resolução dos problemas de moradia, embora vital, não é a única resposta. A reconstrução das histórias de vida requer mudanças físicas e também a retomada de laços familiares, autonomia das pessoas atingidas e o fortalecimento de atividades culturais e religiosas. À medida que as famílias se estabelecem nos reassentamentos, é imperativo observar os impactos na saúde física e mental.

Por Janaína Moraes e Maria do Carmo D’Ângelo

Com o apoio de Crislen Machado

“A minha filha também ficou com problema psicológico, de depressão. O meu filho menor teve tratamento de depressão por um longo tempo, ela também teve tratamento. Só que agora a gente não tem psicólogo há mais de ano. Se não tivesse acontecido o rompimento, a vida, hoje, seria diferente. Minha filha, hoje, estaria formada, porque ela teve que parar os estudos por problemas de saúde, depressão, né? Meu filho pequeno também ficou com problema de ansiedade, muita ansiedade. A gente, hoje, estaria vivendo nosso mundo em outra realidade, principalmente de saúde nossa, porque eu fiquei muito doente, fiquei com síndrome do pânico. Meu esposo também ficou doente, também com depressão e com diabetes. A gente tinha nosso trabalho, nossa sobrevivência, que a gente tinha trabalhado há muitos anos e, na hora de colher, foi como se tirassem a gente do nosso chão.”

Maria do Carmo D’Ângelo, moradora de Paracatu de Baixo

“Além do evento do rompimento, consideramos que estamos em um desastre em curso, ou seja, o desenrolar das situações decorrentes do desastre-crime continua a produzir danos e consequente sofrimento emocional. O deslocamento forçado, a perda da história, das comunidades, as mudanças nos modos de vida, a perda de laços sociais provocada pelos deslocamentos, os conflitos relacionados às reparações, entre outros, são pontos que afetam a vida das pessoas e podem gerar dificuldades para essas populações em suas vivências. Há casos em que é necessário acompanhamento individual para auxiliar as pessoas com sofrimento intenso ou com dificuldades em exercer suas atividades cotidianas, como trabalho, estudos, entre outras. Algumas situações demandam um cuidado em grupos, com apoio de outras pessoas da comunidade ou de algum grupo de afinidade. Há, ainda, o fortalecimento das participações em eventos da comunidade, nas lutas políticas e espaços de reivindicação de direitos. Essas ações podem ser de grande importância para a manutenção da saúde mental, além de promover legitimidade e reconhecimento dos direitos violados e construção de alternativas comunitárias de superação. O momento atual está fortemente marcado pelos reassentamentos, em suas diferentes modalidades. Novas mudanças são previstas e trazem novos desafios. A falta de segurança e de previsibilidade ainda é muito presente nesse momento, além de também serem frequentes o não reconhecimento dos locais de reassentamento e a diferença entre as expectativas e o que é apresentado na realidade, como alguns problemas nas casas entregues. Os conflitos atuais podem gerar reações depressivas, estresse e ansiedade. Vale ressaltar que ainda há muitas situações não resolvidas, não reconhecimento de direitos e as inseguranças em relação ao futuro permanecem. 
A resolução dos problemas de moradia pode exercer um papel fundamental para a reconstrução das histórias de vida, no entanto, pode não ser suficiente, sobretudo com as questões pontuadas anteriormente. É necessário que as mudanças para as casas sejam acompanhadas dos vínculos familiares e comunitários, das retomadas dos modos de vida, na medida em que for possível, da autonomia dos atingidos em relação à moradia, geração de trabalho e renda, retomada e manutenção das festas culturais e manifestações religiosas, entre outras.”

Janaína Moraes, psicóloga da Equipe Conviver, moradora de Mariana

Créditos: Yasmin Paulino