5 de junho: Dia Mundial do Meio Ambiente

No dia 5 de junho é celebrado o Dia Mundial do Meio Ambiente. A data foi criada há quase 50 anos, durante uma Conferência da Organização das Nações Unidas, também conhecida como Conferência de Estocolmo. O objetivo era chamar a atenção de todas as camadas da população para as mudanças na natureza. Desde então, a ação dos seres humanos sobre o meio ambiente se intensificou, o que gerou ondas de calor, falta d’água, queimadas intensas e a morte de ecossistemas inteiros, como aconteceu após o rompimento da barragem de Fundão. A seguir, duas colunas para refletirmos sobre a Terra e a importância de preservarmos o meio ambiente.

Foto: Sérgio Papagaio

A terra

Por Sérgio Papagaio, morador de Barra Longa

A Bíblia narra o início da vida humana na Terra com um casal. O primeiro casal a habitar a Terra foi expulso do paraíso por comer o fruto da ciência em desobediência às orientações do Criador. Segundo as religiões Abraâmicas, todos nós descendemos desse par original de ancestrais e, por esse motivo, assim como eles, fomos condenados a passar por provações e tormentos na Terra.

Sarcásticos e tinhosos, os seres humanos vêm fazendo a Terra passar, com eles, por castigos que lhes foram atribuídos. Todavia a Terra, nos seus 4,54 bilhões de anos, só conta com a presença do homem e da mulher habitando sua superfície há 350.000 anos. De lá para cá, os seres humanos vêm travando, contra a Terra, uma guerra em que os perdedores são sempre os próprios homens e mulheres. Cortam a terra para extrair todo tipo de metal, represam seus rios na construção de hidrelétricas, poluem seu ar na queima de combustíveis fósseis, matam suas árvores, filhas queridas da Terra, o que deixa a Mãe Terra nua, ou lhe cobrem de uma monocultura regada por agrotóxicos. É possível prevermos uma separação litigiosa nessa união pouco estável entre os seres humanos e a Terra, união que nunca chegou a ser consagrada como um casamento de verdade. Os povos das florestas viveram em harmonia com a Mãe Terra por milhares de anos até que os homens das cidades vieram lhes roubar a paz, roubar o amor, roubar a terra em troca de uma suposta civilização que mata, estupra, violenta, mente, escraviza, seja por forçada mão de obra ou por todos os males e vícios de uma civilização selvagem, adoradores do deus dinheiro.

Doente, a Mãe Terra se vê na UTI do universo, lutando desesperadamente pela vida sem que seja possível a regeneração do ecossistema sem a eliminação do seu grande mal, gerador de todos os outros males, os seres humanos. E, para continuarmos habitando a superfície deste doente planeta e fazermos parte do rio que é o sangue da Terra, do qual somos afluentes, teremos de purificar o fluxo de água que corre dentro de cada um de nós, só assim será possível a regeneração da Mãe Terra e a continuação da união, agora estável, entre os homens, mulheres e todos os organismos vivos. 

A Terra pode nos deixar pra trás e seguir seu caminho!

Por Kleber Cavazza Campos, geógrafo e mestre em Hidrogeologia

A pandemia que estamos vivendo tem dado uma pequena amostra de que “a Terra pode nos deixar para trás e seguir seu caminho”. 

Assim fala Ailton Krenak, atingido pelas lamas derramadas pela barragem de Fundão e escoadas rio Doce abaixo, no Jornal da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Jornal UFRGS, 12/11/2020). Do ponto de vista da Terra – Terra como organismo vivo -, somos mais uma de tantas espécies que aqui encontraram condições para se desenvolverem.

No ritmo predatório em que vivemos, podemos estar na lista das espécies a se extinguirem. A espécie humana, em relação às demais, é apenas mais uma, e o organismo vivo Terra não depende de nós para se manter.

A Terra se adapta ao passo que a espécie humana tem um limite, o tempo, para se ajustar a novas condições. Tempo que apresenta duas réguas para ser medido. Uma, para medi-lo do ponto de vista da espécie humana. Outra, para medi-lo do ponto de vista da Terra. Considere que a Terra é um organismo que se encontra aqui há, no mínimo, 4,5 bilhões de anos. Nós estamos por aqui há não mais que 350 mil anos. Por aí já percebemos que não é a Terra que depende de nós.

Como Ailton Krenak diz: “Nos deslocamos do corpo da Terra. Fizemos um divórcio acreditando que poderíamos viver por nós mesmos. Mas, apesar de termos nos divorciado, a todo instante, a usurpamos (extraímos, dominamos, saqueamos, destruímos)”.

Tornamo-nos seres cegados por nossa prepotência. Somos tão prepotentes, tão egocêntricos, que dizemos ser imagem e semelhança de Deus. Ora! Se assim somos, por qual motivo não agimos como tal?

Em suas falas, Francisco (o Papa) tem apontado para este fato: podemos sim, ser a próxima espécie a ser varrida da Terra. E isso, no olhar de Francisco, deve-se ao fato de o homem insistir em se manter cego. Insistir em não querer admitir que a Terra é sua casa. Não somente sua, mas de uma infinidade de outras espécies.

Texto baseado em trechos do artigo de Ailton Krenak (Jornal UFRGS) e do Laudato si, encíclica no qual o Papa Francisco traz-nos a ecologia integral.