Perfil: Luzia Queiroz

Integrante da Comissão de Atingidos pela Barragem de Fundão (CABF) de Mariana 

A CABF é um coletivo eleito e legitimado desde 2015 pela dedicação de incansáveis esforços para que as suas comunidades sejam reparadas. Conheça um pouco mais sobre essas pessoas e as principais conquistas alcançadas ao longo destes seis anos de luta. → Saiba mais na matéria “Nós Somos a Comissão

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Luzia Queiroz, 58 anos, cerimonialista. Representante de Paracatu de Baixo na CABF

Luzia arrumava noivas, ou melhor, realizava sonhos! Além disso, já trabalhou com eventos e cerimoniais, era boa em tudo o que fazia. Atualmente, é representante de Paracatu de Baixo na Comissão de Atingidos pela Barragem de Fundão (CABF). Ela diz que é nascida e criada em Ouro Preto (MG), mas decidiu, juntamente com o destino, que a cidade de Mariana seria o seu lar. “Hoje sou filha adotiva de Mariana. Virei, como se diz, uma paracatuense”.

O que te motiva?

No início, quando entrei para a Comissão, vi que a gente estava lidando com lobos. Entramos com o intuito de achar que tudo ia acabar muito rápido, mas a realidade é que a situação já se arrasta para os seis anos. O que me motiva mais a estar na Comissão é perceber que o pouco que eu aprendi quando fiz o curso Turismo do Cefet [Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais] foi se encaixando, peça por peça, e eu tinha um pouco do conhecimento do que eles estavam falando. Com o tempo, fomos pedindo para eles traduzirem tudo o que falavam para a nossa língua, porque era muito difícil caminhar com as palavras deles. São do exterior, falam línguas, tem o domínio de muita coisa, mas o que surpreendeu é que eles não tinham o domínio da terra, esse domínio e essa bagagem de informações eles não tinham, apesar de muitos deles falarem “ah, mas meu pai morava em roça, eu conheço vida de roça”. Conhecia porcaria nenhuma! Os pais deles podiam conhecer, mas eles não. Então aprenderam muita coisa com a gente.

Hoje formamos essa Comissão, eu tenho quase certeza que somos o único coletivo em que todos estão juntos e indo até o fim, e que a gente está conseguindo todas as coisas por causa de um coletivo e porque as pessoas confiaram em quem elegeram. É por isso que hoje, a gente já caminha com um passo firme. Paracatu está ressurgindo praticamente das cinzas, é um território que ninguém está nem aí, mas hoje a gente tem ciência de que sabe o que faz, a gente quer fazer e está fazendo o bem. É um orgulho participar da CABF, porque a gente sabe que não tem ninguém igual a gente não, porque apesar de serem poucas pessoas elas estão dando um banho nesse pessoal aí que tem a tecnologia e vários advogados com eles.

Quais as maiores conquistas da Comissão, na sua opinião?

Com certeza foi naquele 23 de dezembro, quando a juíza bateu o martelo em tudo o que a gente pediu. Porque senão, até hoje poderia ter pessoas morando na escola, com filhos, passando aperto na vida, e talvez nem aqui nesse mundo eu estaria, já teria partido para outra esfera… mas a maior conquista nossa foi isso mesmo, foi o cartão, foi os 20% dos independentes e ainda ter a condição de no Natal todo mundo estar em casas alugadas e sair dos hotéis. As antecipações dos 10 mil, para eles ressarcirem parte da conta de luz. E, para as pessoas que comprovaram que trabalhavam, também teve um cartão para uma pessoa da família, isso foi uma das maiores conquistas. Hoje a gente entende que falta porque não teve um aumento e a gente ainda não foi pra casa.

Outra conquista foi quando eles tentaram levar a nossa ação para a instância federal. A gente poderia estar muito pior do que está hoje. A gente não pode deixar de falar no doutor Guilherme, se não fosse ele dar aquele primeiro grito inicial… as coisas estariam muito feias. Muita gente fala que ele errou, muita gente fala que Mariana errou, mas eu entendo que não errou. Nada impediu as pessoas também de quererem buscar um advogado e seguir a vida do jeito que queria. Algumas pessoas seguiram, mas mesmo assim foram travadas lá na frente.

Integrantes da CABF. Arte: Wandeir Campos