O que vale é a vida! Comunidade Garimpeira de Antônio Pereira se organiza na luta por direitos

Duas pessoas garimpam em riacho, uma de camiseta amarela, a outra com blusa azul amarrada na cabeça.

A luta das comunidades atingidas pela mineração no Alto Rio Doce se fortalece a cada dia por meio da organização popular. Nos últimos meses, os garimpeiros e as garimpeiras do distrito de Antônio Pereira, em Ouro Preto, têm se organizado para enfrentar o poder da Vale, que tem impedido e criminalizado seu modo de vida. Além dos impactos ambientais do processo de descomissionamento da Barragem de Doutor, garimpeiros e garimpeiras também têm sido impedidos de acessar as áreas de extração do ouro, o que compromete o sustento de centenas de famílias.

Por Emmanuel Duarte Almada

A marginalização do garimpo tradicional em Antônio Pereira tem suas raízes no período colonial, mais um capítulo de uma longa história de exclusão e criminalização, tanto pelo Estado quanto pelas empresas. Todavia, foi a partir da extração do ouro, que utilizou uma grande diversidade de técnicas e saberes africanos e indígenas, que a comunidade garimpeira construiu sua história e as bases de sua sobrevivência.

Duas pessoas garimpam em riacho, uma de camiseta amarela, a outra com blusa azul amarrada na cabeça.
Foto: Ivone Pereira Zacarias

No último dia 5 de março, garimpeiros e garimpeiras de Antônio Pereira realizaram uma assembleia para fundação de sua associação, um passo importante em sua luta por direitos. Nessa mesma oportunidade, os garimpeiros e as garimpeiras se autodeclararam como comunidade tradicional. Esse ato se soma ao processo de autorreconhecimento da Comunidade Tradicional Garimpeira do Alto Rio Doce, que agora abrange os municípios de Ouro Preto, Mariana, Acaiaca e Barra Longa.

O autorreconhecimento da Comunidade Tradicional Garimpeira do Alto Rio Doce é um momento singular na luta das pessoas atingidas. Ao mesmo tempo que é uma ferramenta de luta por direitos à indenização e reparação, significa uma reafirmação da comunidade garimpeira com a defesa do meio ambiente, por meio da adoção e do aperfeiçoamento de técnicas e saberes tradicionais que permitam a manutenção de seus modos de vida e a regeneração dos ecossistemas, inclusive aqueles degradados pela mineração empresarial. Animados pela fé e por suas memórias, a comunidade garimpeira segue na luta, apurando ouro em meio à lama do capitalismo que fere e mata.

Emmanuel Duarte Almada
Kaipora – Laboratório de Estudos Bioculturais
Professor da Universidade do Estado de Minas Gerais