Era uma vez um belo horizonte

Vista da cidade da linha do horizonte, a partir da Serra do Curral

Vi o Curupira deitado no meio da rua, do lado da estrada, abraçado a uma onça-pintada na calçada. Tomava água mineral, pois a bica do taquaral secou. Avistei também dois gatos-do-mato de pele escura, que, agora, da mesma forma, são moradores de rua.

Foram despejados da Serra do Curral, lugar de, até então, natureza abundante, mas que não pode mais abrigar bichos do folclore, ou qualquer outro animal, apenas o bicho homem, do tipo ganancioso e arrogante.

Esse povo mal quer acabar com o matagal, querem minério, e decidiram de madrugada que a serra tem que ser explorada. A serra ainda estava dormindo, coitada, quando foi avisada.

O Copam quer desabrigar a bicharada, e toda a passarada terá que migrar. O Horizonte não mais será Belo, os picaretas decidiram isso no martelo – coincidentemente, ou não, picareta e martelo são símbolos da mineração.

Querem acabar com o que é belo para construir o “bezerro de ferro”, adoradores do deus dinheiro, que, há séculos, prejudicam o povo mineiro. Na busca pelo metal, não há espaço para os bichos e os encantos da natureza, e a serra, com muita tristeza, nesta dor matadora, será levada para longe pela correia transportadora.

Não haverá mais a sinuosidade exuberante da montanha esverdeada, que será diminuída, pelotizada. Doravante, não veremos mais o monte e a cidade do belo virará um Triste Horizonte.

Por Sérgio Papagaio