Festejar no território para manter acesa a tradição

O retrato de Seu Zezinho continua na parede, mas se no ano passado ele marcava a dor da ausência, neste ano, o retrato na lateral da Igreja de Santo Antônio transmite um sentimento de continuidade. No segundo ano da Festa do Menino Jesus sem a presença física do patriarca que comandou a celebração por mais de seis décadas, o trabalho em conjunto da família, de amigas e amigos mostrou que a comunidade de Paracatu de Baixo segue firme em suas tradições. 

Nos dias 16 e 17 de setembro, a tradicional celebração em honra ao Menino Deus reuniu, mais uma vez, as moradoras e os moradores em Paracatu de Baixo para festejar em seu território e manter acesa a chama que os une em torno de uma devoção. Ao som do Coral Canta Comigo e da Folia de Reis de Paracatu, os festejos também foram abrilhantados com a participação da Guarda de Congo de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, da Dança de Fita de Monsenhor Horta e da Folia de Pedras.

Por Carla Gomes Barbosa, José Nestor, Maria Cristina, Maria Geralda Oliveira da Silva, Marilene Rufino Anacleto, Padre Roberto Natali Starlino, Vinicius Lourenço Peixoto

Com o apoio de Pedro Henrique Hudson

Eu fiquei muito preocupada com medo da festa desse ano não acontecer. Foi com muita luta que a gente conseguiu se mobilizar pra realizar a festa. Corremos atrás do Congado, da Banda de Música, da Dança da Fita e da Folia de Pedras, que está acostumada a tocar com a nossa. É uma coisa que meu pai sempre gostava, ele não sabia fazer a Festa do Menino Jesus sem esse movimento que aconteceu no domingo. A gente também trazia brinquedos para as crianças, ele gostava de ver as crianças brincando. Mas foi muita coisa pra organizar e, com esse deslocamento, tudo fica difícil. A gente tem que sair daqui de Mariana pra ir lá resolver as coisas. Então a festa aconteceu, mas com muita luta, muita garra e muita dificuldade. Tivemos que passar por muitos desafios pra que ela acontecesse. 

E essa é uma coisa que já foi plantada há muito tempo em nossa comunidade, mas, depois que o povo foi pra Mariana, tudo ficou mais difícil. Antes era um trabalho, mas, depois do rompimento, a Festa do Menino Jesus passou a ser uma luta. O povo está todo espalhado, a gente precisa ficar pedindo transporte pra Renova pra levar as pessoas. A gente vai e precisa ficar levando instrumentos, depois tem que trazer de volta. Tudo o que precisa na Igreja tem que ser levado de Mariana pra Paracatu, aí precisa de transporte e, na volta, tem que trazer tudo de novo. É muito difícil, é muita luta e, se fosse olhar a luta que tem, a gente já teria desistido. Nós só não desistimos da festa ainda porque Deus não permitiu, mas tivemos que ter muita força e lutar muito pra que ela acontecesse. A festa desse ano foi a que mais se pareceu com a última antes do rompimento. Ela parecia com a de domingo daquele ano, no movimento de pessoas. Só faltou um brinquedo para os meninos, mas esse ano conseguimos trazer tudo o que tinha antes. Depois do rompimento, não conseguimos fazer uma mobilização concreta que reunisse a mesma quantidade de pessoas de antes, mas esse ano a festa marcou muitas pessoas, e muita gente tem me ligado pra falar que se lembraram do meu pai e disseram que parecia até que ele estava no meio de todos.

Maria Geralda Oliveira da Silva, moradora de Paracatu de Baixo

Quando a gente quer conquistar alguma coisa, a gente faz uma promessa e, se acontece aquilo que a gente pediu, a gente tem que cumprir. Como hoje é o dia do Menino Jesus, eu tô pagando a graça que consegui. Mas tem que ter fé, senão não acontece. Essa devoção vem desde o meu pai, o pai dele, a minha mãe e a mãe da minha mãe. E eu já estou começando agora a passar essa devoção para a minha filha, e assim vai, passando de geração em geração.

Maria Cristina, moradora de Paracatu de Baixo

Eu toco na Folia desde pequena, porque a minha mãe também acompanhava, mas eu comecei vestindo de palhaço e depois passei a tocar bumbo. Sempre tivemos a oportunidade de tocar na Folia, eu adoro isso. Isso é uma cultura, uma tradição que nós temos e eu estou trazendo uma nova turminha, uma nova geração, para não deixar a Folia acabar. 

Marilene Rufino Anacleto, moradora de Paracatu de Baixo e membro da Folia de Reis

Eu canto no coral “Canta comigo” desde o início. A Angélica é a coordenadora e a gente ensaiava com o pessoal do grupo de jovens. Era uma turma muito grande, cerca de 30 pessoas, mas, depois que a barragem rompeu, o pessoal foi se distanciando. Tanto é que o grupo de jovens acabou e o coral foi pingando, mas resistindo. Agora é que ele está voltando, com outras pessoas ajudando, e toda missa do mês a gente está lá acompanhando. Eu acredito que lá no reassentamento vai ser assim, vai estar todo mundo junto, então vamos ter mais participação da comunidade. 

Carla Gomes Barbosa, moradora de Paracatu de Baixo

Mais recentemente, a gente tá percebendo uma movimentação, que o pessoal está se reunindo de novo. Parece aquela chama que estava se apagando e retornou. São mais pessoas que estão participando e, depois de muito tempo, essa foi a missa que teve mais gente cantando. Antes eram umas cinco pessoas que acompanhavam sempre, mas agora parece que estão retornando algumas pessoas que cantavam na igreja antes do rompimento. 

Vinicius Lourenço Peixoto, morador de Paracatu de Baixo

Desde pequeno que eu me visto de palhaço, que é quem faz a alegria da festa. Na Folia de Reis, a gente sai dia 26 de dezembro e volta no dia 6 de janeiro para a comunidade de Paracatu. O palhaço faz graça, e a meninada gosta de brincar, igual elas brincaram aqui hoje. E isso vem desde o Seu Zezinho, que pediu pra não deixar a Folia acabar, e nós estamos continuando. Rodamos esses distritos todos, vamos pra Pedras, Águas Claras e outros lugares. E o palhaço vai animando porque, sem ele, não tem a mesma alegria. 

José Nestor, morador de Paracatu de Baixo

É com muita alegria e emoção que participo aqui na comunidade de Paracatu de Baixo desta festa que já é uma tradição há muitos anos. É uma homenagem ao Menino Jesus através de manifestações populares como, por exemplo, a Folia, o Congado e outras formas de alegria. Nesse momento, agora que encerra a Eucaristia, a celebração da missa sempre desejada por todos, também é o momento em que a comunidade compartilha gratuitamente a refeição. Uma grande refeição de alegria, de amizade. É um momento de paz para todos nós.

Padre Roberto Natali Starlino, ex-pároco de Monsenhor Horta e vigário judicial do Tribunal Eclesiástico

Créditos: Karine Oliveira