“A cada dia que a Renova existe, fica claro que ainda não houve reparação”

Há oito anos, as pessoas atingidas pelo desatre-crime da Samarco, Vale e BHP esperam por justiça e reparação. A data de 5 de novembro de 2023 marca mais um ano de angústia, incerteza e saudade da vida como ela já foi. Enquanto o reassentamento de Paracatu de Baixo é usado como propaganda de uma reparação bem-sucedida, moradoras e moradores ainda aguardam o recebimento de suas casas finalizadas. 

 A Renova controla o total de moradias entregues, mas, de acordo com a Assessoria Técnica da Cáritas, até setembro deste ano, 70 famílias haviam recebido as chaves. A falta de transparência e diálogo angustia aquelas e aqueles que ainda esperam. A luta se estende há tempo demais e a amada vida rural deu lugar ao dia a dia da cidade, mas a vontade de voltar a viver em uma casa que lhe é de direito mantém o peito aberto para seguir na árdua caminhada. 

Por  Anderson Jesus de Paula e Ana Paula Carneiro da Silva

Com o apoio de Lívia Salles e Pedro Henrique Hudson

“Meus pais têm propriedade em Paracatu há 16 anos, mas a casa deles não foi atingida. Eles optaram pela modalidade de pecúnia. Hoje, eu tenho direito a uma casa no reassentamento devido a uma herança do meu tio.

A reparação é devolver casa, um terreno, moradia. Restituição é devolver o modo de vida da pessoa que ele tinha, como ela convivia. Meu tio tinha um modo de vida: ele plantava, ele tinha suas criações dentro de, aproximadamente, 1.800 metros quadrados e, nessa reparação, estão devolvendo 250 metros quadrados. 

Ou seja, estão reparando, mas não estão me restituindo. Minha luta é fazer com que a reparação seja, de fato, reparação. Sofremos violência em relação aos nossos modos de vida em todos os sentidos. E é nessas falhas que sempre luto e bato para ver se chega, pelo menos, o mais perto do que era, não é? Porque as pessoas estão confundindo, a própria Renova acha que padrão construtivo é reparação. 

A participação popular que eles alegam é uma participação, pra mim, camuflada. Eles chegam com o projeto pronto em 3D, com arquitetos e argumentos técnicos, mas a comunidade só tem o poder de falar se executa a obra ou não, e se discordamos, eles executam mesmo assim. Minhas filhas ainda vão comigo para Paracatu, às vezes, na casa dos meus pais, que fica na parte mais alta e não foi atingida. 

Só que aí a gente vai para um local que não tem tanta estrutura, e ainda tem aquele fantasma do rompimento. Do lado da casa tem uma sirene. Muitas pessoas veem isso como um ganho, ela toca todos os dias, na hora certa. Eu vejo isso como uma mensagem das mineradoras: ‘quando isso tocar, ou você corre, ou morre, porque vou continuar fazendo tudo do mesmo jeito’. Pra mim, Mariana toda foi atingida. 

A reparação só existirá quando a Renova desaparecer. A cada dia que ela existe, fica claro que ainda não houve reparação. Nesta data, em 2025, espero que as casas da comunidade tenham a cara do próprio morador, não da Renova, que impôs um padrão. A reparação só existirá quando a comunidade voltar a ser uma comunidade.”

Anderson Jesus de Paula, morador de Paracatu de Baixo

“Tem 15 anos que eu moro aqui em Paracatu, desde que eu casei. Eu sou atingida de duas comunidades, já morava aqui quando a barragem rompeu, mas sou de Campinas.

É uma tentativa de recomeço, né? Eu já peguei a chave da minha casa, mas ainda não posso ir morar lá, porque eu ainda tenho meus filhos na escola, que fica em Mariana. Tudo é novo, é uma outra realidade construída na comunidade, então, cada dia, cada passo, é uma adaptação. Tem oito anos que a gente tá em Mariana, mas eu e minha família não nos adaptamos lá, então todo final de semana a gente ainda vem pra cá. 

Quando a barragem rompeu, a minha filha tinha dois anos, agora ela tem 10. Meu filho tinha cinco, hoje ele tem 13. Meu marido nunca se dispersou da comunidade, ele nasceu, cresceu e viveu aqui e acredito que vai morrer aqui também. Porque, nesses oito anos, ele sempre quis passar os finais de semana aqui, ele nunca teve o desejo de sair. Eu ainda não sou casada na igreja, eu espero me mudar logo e poder me casar na nova igreja. Não é igual a que a gente tem aqui, mas é um recomeço.

Ana Paula Carneiro da Silva, moradora de Paracatu de Baixo

Créditos: Ped ro Hudson