“Daqui em diante é recomeçar”

No dia 5 de novembro de 2023, o crime das mineradoras Samarco, Vale e BHP, com o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana-MG, completa oito anos. Durante quase uma década, a luta por justiça é feita incessantemente pelas comunidades atingidas. Um dos direitos das pessoas atingidas é a moradia em reassentamento coletivo ou individual, já que os lares que habitavam foram destruídos.

No entanto, também em relação à restituição do direito à moradia, as mineradoras e a Renova estão sendo incompetentes. Além disso, no caso dos reassentamentos coletivos, temos a impressão de estar em um condomínio fechado ainda em construção, algo completamente diferente dos modos de vida das populações. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), hoje, uma em cada cinco famílias desistiu de ser reassentada no Novo Bento Rodrigues. Os motivos são diversos: divergência em relação ao tamanho do terreno; insatisfação com o lote ou com o projeto; e surgimento de novos núcleos familiares.

Por Antônio Gonçalves

Com o apoio de Tatiane Análio

“O caminho durante esses oito anos foi difícil e triste. Até hoje, relembrar isso é triste. Nossa casa demorou para ficar pronta, mas, graças a Deus, hoje nós estamos aqui. Daqui em diante é recomeçar essa nova jornada. Até hoje, tem algumas pendências em questão de indenização. A minha esposa não foi reconhecida como pessoa atingida ainda. É demorado, é burocrático, mas a gente vai conseguindo. 

A diferença daqui e de Bento de origem é muita. Lá a gente tinha mais liberdade. Tínhamos nosso ponto de encontro, tínhamos para onde ir, tínhamos uma rotina. Agora nós temos que nos acostumar com aqui. É difícil você fazer aquilo que você fazia no passado. Nós temos que viver uma outra vida. Temos 50 famílias aqui no reassentamento, mas o espírito de comunidade no sentido de mudar, de organizar, ainda está fraco porque, antes do rompimento, nós tínhamos nossas missas, nossos encontros. 

Para falar a verdade, isso ainda é difícil. É novo para todo mundo, até acostumar, até você sentir liberdade é um caminho. Algumas pessoas ainda estão meio acanhadas, porque aqui tem obra e, às vezes, ficam acanhadas de sair e ver as pessoas. Eu acho que, só depois que vier todo mundo, aí que o espírito de comunidade vai começar a surgir. 

No período em que nós ficamos em Mariana, nós nos distanciamos muito uns dos outros, tem pessoas que, até hoje, eu não vi ainda. Cada um morava em um bairro, é difícil. Para morar aqui, temos que ter os pés no chão, porque tem a garantia de 25 anos da casa. Você não sabe como vão ser os gastos depois que acabar a garantia, então a gente tem que manter a cabeça no lugar e seguir em frente. O que restou da minha casa antiga foi somente uma imagem quebrada de Nossa Senhora Aparecida que eu preferi não trazer para a minha nova moradia.”

                                                  Antônio Gonçalves, morador de Bento Rodrigues

Créditos: Tatiane Análio