Mariana 8 anos: a reparação na balança das Geraes

Nesse marco temporal, comunidades atingidas pelo rompimento da barragem reivindicam mais uma vez a justiça 

Desde 2015, as pessoas atingidas de Mariana lutam para a reparação integral dos danos sofridos e pelo restabelecimento de suas condições de vida. São profundas as alterações provocadas pelo contexto de um desastre-crime dessa magnitude, que obrigou pessoas de comunidades rurais a se mudarem para a zona urbana e as inundou de tarefas indispensáveis para a reorganização dessas vidas já atravessadas por tamanha violência.

O reassentamento das comunidades arrasadas pela lama foi uma conquista das pessoas atingidas, mas a morosidade como ainda está sendo conduzido o processo provoca frustração e incerteza duradoura quanto ao futuro. Foram recorrentes as alterações dos prazos para a conclusão dos reassentamentos, e tais descumprimentos jamais foram judicialmente penalizados. Nesse sentido, muitas pessoas morrem sem vivenciar a reparação integral e ter de volta suas casas. Muitas entregas de chaves realizadas neste ano são de casas com avarias. Ainda é preciso destacar que os reassentamentos não respeitam integralmente o modo de vida das comunidades assoladas pela lama. O modo de vida rural mantido por essas comunidades garantia diversidade e acesso a alimentos saudáveis, de qualidade conhecida e também a autonomia das famílias. Tudo isso foi soterrado por uma onda de rejeitos que se arrasta pelo tempo.

Atualmente, além do alto custo dos alimentos nos centros urbanos, a procedência e qualidade são duvidosas e desconhecidas. Mesmo nos reassentamentos, onde as primeiras casas estão sendo entregues, não é possível prever o retorno dos modos de vida, tendo em vista a declividade dos terrenos e a falta de acesso à água bruta. Ou seja, os impactos causados pelo rompimento da barragem de Fundão implicam também em uma perda da soberania e segurança hídrica, e também alimentar, que antes existia nas comunidades atingidas.

Oito anos depois do desastre-crime, é evidente que a justiça pelas pessoas atingidas não foi alcançada. O poder econômico das mineradoras se sobressai, assim como a lama que ainda é uma mancha em toda a bacia do Rio Doce e no Espírito Santo. É urgente falar sobre a (in)justiça em Mariana e, de forma ampla, em outros territórios minerários de Minas Gerais. Os territórios atingidos pela exploração predatória sofrem com a injustiça e violência desde a “corrida do ouro” colonial e, ainda hoje, a história continua contaminada pela maquinação minerária.

Para além de comunidades dilaceradas, das histórias e relações interrompidas, da imposição de uma nova rotina e da experiência de uma vida deslocada e suspensa, as pessoas atingidas pelo desastre-crime de Fundão enfrentam um contexto hostil ao acolhimento de sua presença e de seus esforços de reivindicação de direitos. São pessoas que estão há oito anos submetidas a graves violações de direitos humanos, mas que não fogem da luta pela reparação integral. Diante disso, a Cáritas MG | ATI Mariana reivindica, em consonância com as pessoas atingidas, que a justiça seja alcançada no território das Geraes.