Vítimas do rompimento da Barragem de Fundão protestam em reunião de acionistas da BHP na Austrália: “quando vocês vão devolver nossas vidas?”

Na véspera do aniversário de 8 anos da tragédia, o presidente e o diretor executivo da BHP foram confrontados, na Austrália, por pessoas atingidas pelo desastre-crime provocado pelo rompimento da barragem de Fundão.

Um grupo de cinco pessoas atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, confrontou executivos da BHP durante a Assembleia Geral Anual dos acionistas da mineradora no dia 1º de novembro em Adelaide, cidade da Austrália. O grupo, composto por quilombolas, moradoras e moradores de Mariana e areeiros, acusou a empresa de esconder dos investidores a seriedade do crime ambiental e social causado pelo derramamento de rejeitos tóxicos da Samarco na bacia do Rio Doce em 2015.

Durante cerca de 50 minutos, as brasileiras e os brasileiros denunciaram as perdas pessoais e coletivas que suas comunidades sofreram e ainda sofrem. O presidente da BHP, Ken Mackenzie, e o diretor executivo, Mike Henry, mostraram constrangimento com as fortes denúncias das pessoas atingidas pelo rompimento. A reunião foi encerrada logo após a última brasileira usar a palavra, seguida de aplausos.

“Devolva a minha vida”

Mônica dos Santos, moradora do distrito de Bento Rodrigues, criticou a Fundação Renova e lembrou que 107 pessoas já morreram desde o rompimento da barragem – 58 de Bento Rodrigues. Ela tentou entregar aos executivos uma garrafa da lama, símbolo da tragédia, e um cartaz com a foto das 19 pessoas mortas por causa do rompimento, mas foi impedida de se aproximar dos diretores. “Essa é a empresa em que vocês investem, a empresa que tira vidas”, disse à plateia. “Só me mostra o quantos vocês são canalhas”, completou Mônica ao se dirigir a Mackenzie.

“A maioria não recebeu sequer as migalhas que estão sendo oferecidas pela Fundação Renova. A Renova só leva em consideração o que eles querem reconhecer. Dessas 58 pessoas [que morreram], eu perdi o meu irmão três anos atrás, de 37 anos. Perdi primos, perdi tios, perdi amigos. A pergunta que fica é: ‘quando vocês vão devolver a minha vida de volta?’”, questionou.

“Contra a verdade não existe argumento”

Mauro Marcos da Silva, morador de Mariana, criticou as supostas ações de reparação que a Fundação Renova disse ter feito após o rompimento da barragem. “Após esse evento de hoje, cada um de vocês [acionistas] poderá voltar para suas casas. Eu, a Mônica e outros líderes comunitários até hoje não temos sequer projetos porque sofremos retaliação da Fundação Renova. Contra a verdade não existe argumento, mas existem várias maneiras de se contar uma mentira na esperança de se tornar verdade,” declarou.

O Mauro também mandou um forte recado aos acionistas da BHP que acompanhavam o evento. “Vejo aqui várias pessoas que certamente passaram um longo tempo da sua vida dando o melhor de si para o mundo. Compactuar com essa farsa após saber toda a verdade só os tornam tão canalhas quanto os canalhas que quiseram nos destruir”, finalizou.

As vítimas – que são clientes da ação que corre na Justiça da Inglaterra movida pelo escritório Pogust Goodhead – também alegaram que a BHP não separou dinheiro suficiente para arcar com o processo nas cortes inglesas. Disseram ainda que a mineradora engana os acionistas sobre o estado da recuperação da natureza ao dizerem que os rejeitos depositados no Rio Doce não são tóxicos. Essas pessoas reforçaram que a mineradora fracassou em oferecer reparação justa e integral, em especial às comunidades quilombolas e indígenas.

Ao final da reunião, vários acionistas australianos procuraram as vítimas brasileiras para agradecer pelos relatos. Muitos disseram que não tinham ideia da tragédia até hoje vivida por toda a bacia do Rio Doce. “Tive que viajar meio mundo para que minha voz fosse ouvida pela BHP. Os executivos e o conselho da BHP cometeram dois crimes – primeiro, a negligência no rompimento da própria barragem, mas agora eles estão sendo cúmplices do segundo crime que é negar a mim e a todas as outras vítimas do desastre uma compensação justa. Levei minha luta por justiça contra a BHP ao tribunal na Inglaterra e dedicarei o resto da minha vida, se for necessário, a deter esses criminosos responsáveis”, declarou Edertony José da Silva, areeiro de Governador Valadares.

Tom Goodhead, sócio-administrador e diretor executivo global do escritório de advocacia Pogust Goodhead, elogiou a participação das vítimas na reunião. “Meus clientes enfrentaram corajosamente a BHP em sua Assembleia Geral, forçando o presidente da BHP, seu diretor executivo e maiores acionistas a ouvirem seus gritos por justiça. Oito anos depois desse crime ambiental causado pela BHP – em que deram prioridade ao lucro ao invés da segurança –, a mineradora ainda não conseguiu compensar de forma justa nossos cerca de 700 mil clientes”, ressaltou.

Divulgação | Pogust