O medo de não ter a vida de volta

Os atrasos nas obras dos reassentamentos coletivos têm feito algumas famílias de Paracatu de Baixo e de Gesteira optarem pelo reassentamento familiar – embora ele também não apresente resultados satisfatórios. A demora para o início das construções no reassentamento de Gesteira, a morosidade no prosseguimento das obras no reassentamento de Paracatu de Baixo e todos os empecilhos que surgem na hora de comprar as casas para quem optou pelo reassentamento familiar começam a desanimar os(as) atingidos(as) que sonham, há mais de cinco anos, em voltar para o ritmo de suas vidas. A fragmentação das vizinhanças antigas também é uma preocupação das comunidades atingidas, visto que as desistências do reassentamento coletivo alteram a dinâmica dos locais.

Por Júlio César Gilberto, Luzia Queiroz, Marcina Drumond de Melo e Vera Lúcia da Silva

Com o apoio de Joice Valverde e Juliana Carvalho   

O reassentamento de Paracatu segue como em 2020: Sem nenhuma obra concluída. Foto: Cáritas MG

O que a gente vê da Fundação Renova são alguns videozinhos que são muito curtos em Facebook, Instagram, e a gente não vê nada de concreto. Pra gente, esses reassentamentos serviriam como uma esperança a ser alcançada o mais rápido possível. A comunicação da Fundação Renova nunca foi eficiente. Em Gesteira, éramos 39 pessoas que estavam esperando o reassentamento coletivo, já teve 14 desistências, 14 tentativas de acordo. A gente pensou que, quando entrasse em contato com eles, as respostas seriam imediatas. Mas a resposta deles demora meses e meses e meses. E nunca é a pessoa com quem você entrou em contato que dá o retorno, sempre tem que levar um patamar acima, né? Pra saber o que falar, o que resolver. Então, a comunicação deles é péssima. 

 Júlio César Gilberto, morador de Gesteira 

Levou cinco anos e oito meses para ter a estrutura da escola e o restante do tempo em escolha de terreno, infraestrutura e algumas bases que foram iniciadas e não teve seguimento. A Renova, para nós, é tipo fundação laranja que obedece às exigências das empresas criminosas, Vale, Samarco e BHP. Muito se fala e pouco se faz. Para as empresas, tem prazo para tudo e, quanto aos atingidos, enrolam as datas e não cumprem os prazos. A demora desmotiva os atingidos, as novas formas de vida, a história toda modificada e a insegurança de não se adaptarem à nova realidade. 75 por cento da comunidade não vai mais para o reassentamento coletivo. A  demora é muita e tem pessoas que estão paradas no tempo, esperando para dar sequência na vida e ver o que ainda é possível. Conheço várias pessoas que não querem nem ouvir falar de reassentamento. Demora das edificações, modo de vida muito diferente, quebra de relacionamentos familiares e de vizinhança, lugar muito afastado, o medo de morrer sem ter a vida de volta.

Luzia Queiroz, moradora de Paracatu de Baixo

São muitas cobranças de todos os atingidos, muitas exigências, pedindo, implorando, pra que a Fundação Renova contemplasse a comunidade com a reconstrução do reassentamento do Gesteira. Toda a documentação exigida pela Fundação Renova foi feita. Um trabalho muito minucioso, com grupo de base, buscando, na memória de cada um, o que era necessário sobre como era nossa comunidade, uma comunidade simples, pobre, mas que tinha tudo no seu devido lugar. Tinha área de lazer, campo de futebol, tinha uma área muito grande que era o lado da igreja, que o povo fazia seus momentos festivos. Fizemos os trabalhos e aguardamos que cumprissem com a obrigação deles de reparar os danos desse crime que acabou com toda nossa vida e isso dura cinco anos e seis meses de espera. Não tem nem como a gente explicar por que eles não deram início na mão de obra pra reconstrução do novo reassentamento coletivo de Gesteira. E essa Fundação Renova assumiu o compromisso da Samarco para nos enrolar. Três vezes já que adia a data de entrega das casas da comunidade, eu vejo isso como um pouco caso, uma forma de ganhar tempo, que as empresas e a Fundação Renova estão fazendo com cada um de nós. Tem o projeto pronto, tem toda a documentação na mão do senhor juiz, todos os trabalhos feitos na Câmara Técnica, CIF, tudo legal. Tudo que o atingido tinha que fazer já foi feito. 

Vera Lúcia da Silva, moradora de Gesteira

Isso vem causando transtorno muito grande em relação à cultura que a comunidade tinha, porque são pessoas que estão optando pelo reassentamento familiar devido à demora, né? Já foi entregue na mão do juiz, já foi entregue à Fundação Renova, o projeto conceitual do reassentamento de Gesteira. Então, nada disso impediria a Fundação Renova já estar fazendo, abrindo vias, já locando equipamentos públicos, né? Equipamentos coletivos, como igreja, salão paroquial, capela, escola, nada disso impediria, mesmo com a desistência dessas pessoas que estão indo pro reassentamento familiar. 

E o impacto que isso está causando é um impacto muito grande, só quem vive e sente na pele sabe o impacto que isso tá causando. O impacto, como falei, cultural, porque a gente tinha nossas culturas, nossas festas tradicionais. Hoje, a gente não tem mais. No dia 5 de novembro de 2015, no dia do aniversário do meu pai, meu pai completando 64 anos, teve esse desastre, em que foi levada a nossa casa embora e, desde essa data, nós nunca mais tivemos o prazer de comemorar o aniversário dele. Meu pai estava com 64, cinco anos depois, tá com 69. Vai fazer 70. Se o reassentamento de Paracatu e Bento já existe há cinco anos e, até hoje, existem cinco casas em Bento, inacabadas, que ainda não têm condição de receber o morador, imagina se o de Gesteira começar em 2022? E demorar cinco anos para entregar? Eles vão tá entregando em 2027, meu pai vai estar com 77 anos. Nisso tudo aí, ele perdeu mais de 10 anos. Então, esse é um dos piores impactos que, hoje, a comunidade de Gesteira vem sofrendo. Pessoas envelhecendo, pessoas sem esperança, pessoas sem um horizonte, sem nada, sem apoio, pessoas que ainda nem foram reconhecidas como atingidas. 

Júlio César Gilberto, morador de Gesteira

Projeto do reassentamento de Gesteira construído pela comunidade, em parceria com o GEPSA/UFOP. Foto: Assessoria Técnica Aedas

As informações que eu tenho do reassentamento de Paracatu é que tá tudo muito atrasado, tem algumas poucas coisas. Acho que ainda estão fazendo terraplanagem, ainda vão fazer um dique lá pra represar água, a notícia que eu tenho é essa, tá tudo atrasado. A comunicação da Renova sobre o andamento das obras não é eficiente não, porque as coisas não andam, não adianta ela falar que sai no final do ano, mas todo mundo tá vendo que não vai sair. Desisti do reassentamento, eu não vou pro reassentamento, porque eu tenho lá é terreno grande, e eu vou pra um assentamento familiar, quer dizer, posso escolher um terreno, posso escolher um lote, uma casa. Eles têm feito videoconferência, umas três ou quatro já, mas tudo o que eu escolho uns não têm documento, outros têm muita água no local, outros já foi vendido. Eu acho que eles estão me enrolando, sabe? E eu tô esperando a minha casa. Ultimamente, mandei três endereços de casas que estão vendendo pra eles analisarem e comprar, aqui em Mariana. Então, é isso, estou aguardando.

Eu só quero que a Renova olhe pro meu caso e tome uma decisão de comprar uma casa aqui pra mim, em Mariana. Se isso acontecer, eu já fico muito feliz. 

Marcina Drumond de Melo, moradora de Paracatu de Baixo

O reassentamento familiar, ao meu ver, não atrapalha o reassentamento coletivo, porque o reassentamento familiar é uma coisa e o coletivo é outra. Isso é direito de escolha de cada um, mas, ao meu ver, foi a Fundação Renova que incentivou o povo pra fazer isso, o reassentamento familiar. Eles incentivaram e o povo, com medo de perder, todo mundo correu pra aceitar o núcleo familiar, porque eles falaram que o processo é mais rápido. Então, quando eu escutei falar isso, até fiquei com dúvida. A proposta da Fundação Renova era muito boa quando eles quiseram fazer a propaganda que o reassentamento familiar seria um processo mais rápido. Mas acontece que ele, o processo do reassentamento familiar, é mais lento e eles enrolam muito mais do que o reassentamento coletivo. 

Vera Lúcia da Silva, moradora de Gesteira